Moradores de favela na Vila Olímpia têm direito de moradia garantido

Construção de habitações populares no mesmo local representa vitória pontual contra a especulação imobiliária: déficit habitacional ainda assola São Paulo

Por Fabrício Amorim

Rua Coliseu - sentido (sem saída2)

Rua Coliseu: grandes prédios ao fundo (Foto: Fabrício Amorim)

O maior sonho de Rosana, Zezinho, Ana Cecília, e tantos outros moradores da Rua Coliseu está próximo da realização. O prefeito Fernando Haddad (PT) liberou R$ 40 milhões de reais para a urbanização da favela Funchal, instalada há mais de 55 anos na região da Vila Olímpia, bairro nobre de São Paulo. De acordo com a Prefeitura, o projeto para a definição das construções está sendo elaborado até o final do mês de junho e “nenhuma família ficará sem atendimento habitacional”. Cerca de 700 mil famílias moram em condições impróprias e necessitam de uma casa na cidade.

Com o direito à moradia garantida no mesmo local, resgata-se a dignidade, o respeito e a notabilidade que deveriam ser assegurados a todos – independente da condição de sua habitação. Telhado e concreto vão trazer às 270 famílias cadastradas mais do que um abrigo com condições melhores. “Acordamos de um sonho que está se tornando realidade. Existe barraco podre por cupim, alguns de três andares. É uma área de risco. Agora, quando as moradias ficarem prontas, vamos ganhar respeito”, afirma uma das colaboradoras da comunidade, Rosana Santos, que não apaga da cabeça as marcas que o preconceito deixa.

Na lembrança do barraco alagado nos anos 1970, da luta por saneamento básico, que foi vencida no final da mesma década, trazendo água e esgoto, Rosana nunca esquecerá a fase de sua vida em que teve de suprimir sua raiz, omitindo onde vive e nasceu. “Eu trabalhei cinco anos no bairro de Moema e mentia onde eu morava para manter o emprego. Outros funcionários falavam muito mal de favela e eu mexia diretamente com o dinheiro da empresa. Trabalhei cinco anos lá e eles não sabem até hoje que eu era moradora daqui. Por outro lado, quando falo que moro na Vila Olímpia, falam que sou ‘burguesa’. Mal sabem onde eu moro”, explica a colaboradora.

A Vila Olímpia era um bairro estritamente residencial com áreas alagadiças próximas ao leito do Rio Pinheiros, na parte baixa do bairro. No final dos anos 1950, as primeiras famílias que ocuparam o terreno, onde hoje está a comunidade, viram no entorno um local que ainda possuía feição de chácara. Nas proximidades, havia ocupações de campos de várzea, dentre outros posseiros que chegavam. Para ter uma ideia, a Marginal Pinheiros (trecho Castelo Branco-Bandeirantes) só seria construída em 1970; e a avenida Juscelino Kubitschek em 1976 –, com a canalização do ‘córrego do sapateiro’. Ou seja, era uma região pouco acolhedora, mas que cresceu rodeada pela classe média, até tornar-se um gigante econômico no início dos anos 1990.

Por ali se instalaram grandes empresas, universidades, shoppings, restaurantes e a especulação imobiliária viu desde cedo terreno fértil para ganhar muito dinheiro. Essa invasão do poder privado só foi possível após as obras nos rios Uberaba e Uberabinha, e após a regulamentação da Operação Faria Lima, no período da administração da Paulo Maluf (1993-1996). A lei Nº 11.732, DE 14 DE MARÇO DE 1995 articulou o alargamento e criação de avenidas, além de firmar compromisso de construção de moradias no mesmo local para moradores de favela na região. Logo de cara, não foi o que ocorreu. Mais de mil famílias foram obrigadas a deixar seus barracos na favela Juscelino Kubitschek, para a expansão da Avenida Brigadeiro Faria Lima sentido Avenida Santo Amaro. Atualmente, grande parte desta comunidade reside em Cidade Tiradentes, o que mostra o sucesso da política de exclusão social do prefeito na época.

Apesar do cenário ameaçador, a Operação Faria Lima não incomodou em nenhum momento a favela Funchal, que olhava desconfiada para tudo aquilo. “Não entendemos bem a garantia de moradia que a Operação Faria Lima dava. A gente deu sorte porque estávamos um pouco mais distantes, senão teríamos sido removidos. Pra gente era um susto tudo aquilo”, analisa Rosana.

Somente na década de 1990, supostos herdeiros do terreno reivindicaram o local como sendo de seu avô. Os moradores da comunidade procuraram um defensor público que conseguiu o “uso de posse”. Em seguida, a ação de usucapião embaralhou o processo sobre a terra na Justiça. Para destravar qualquer impasse perante o judiciário, a gestão Haddad pretende classificar a região como “Zona Especial de Interesse Social” (ZEIS) dentro da Operação Faria Lima.

Escondidos e procurados

Diante do crescimento do bairro e com a construção dos enormes prédios envidraçados ao lado da comunidade, a Rua Coliseu ficou praticamente escondida. Abordei dez funcionários de três empresas do prédio vizinho e somente dois sabiam da existência da favela. “Esses prédios grandes nos esconderam. Pior é que ficamos sabendo que nossos novos vizinhos se incomodam com a gente aqui. Mas eles que incomodam. E, na verdade, eles tiraram nosso sol”, comenta Rosana.

Há mais de uma década, a entrada da rua que abriga a comunidade, bem na esquina com a Rua Funchal, possui uma Base Comunitária Móvel da Polícia Militar, mas que é fixa, 24 horas por dia. “Segurança pra quem?”, perguntei a dois oficiais da PM, que me olharam com cara feia e responderam abruptamente: “Para todos”. A Rua Coliseu é uma via estreita e sem saída, que tem como vizinho de fundos o shopping JK Iguatemi e escritórios, prédios em seus flancos. O terreno possui 6.912 m² e foi avaliado pela Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) em R$ 50 milhões.

base móvel que é fixa na porta da favela

Base móvel da PM: fixa na porta da favela (Foto: Fabrício Amorim)

Cientes da mina de ouro que equivale cada metro quadrado do bairro e sua valorização constante, diversas construtoras enviaram seus representantes com os mais variados discursos. “Vieram vários corretores aqui. Vários. E colocamos todos para correr. Os corretores chegam de terno e gravata, de maneira fina, botando pressão: ‘vocês vão ter que sair, vamos remover os barracos, esse terreno tem dono’. Os corretores acham que somos todos burros, que ninguém aqui estudou”, avalia Rosana.

E é justamente no caminho da educação e da cultura que a comunidade abriga seus jovens. Em um local batizado de “sede”, os jovens têm reforço escolar, além de atividades culturais e recreativas. “Trabalhamos com as crianças da comunidade justamente para elas não irem para as ruas. A gente ajuda muito quem tem dificuldade na escola. É muito importante esse espaço para as crianças”, explica a professora Ana Cecília Vieira, 29, que monitora a sede de ensino. “É um trabalho social. Todo mundo pode vir e usar. Tem que estudar, cara. Essa é a saída. Tem que estudar pra buscar uma saída”, completa Rosana.

Entretanto, a comunidade possui dificuldade em selar ações sociais com empresários nas proximidades. Eliana Tranchesi (falecida em 2012), proprietária da Daslu, loja que era vizinha à favela, tornou-se uma das principais figuras no auxílio à comunidade de diversas formas. De acordo com moradores, a empresária tentou apresentá-los aos donos do shopping JK Iguatemi, sem êxito. “O shopping JK Iguatemi nunca nos atendeu. Temos projetos interessantes e eles nem nos ouvem. Nunca atenderam ao telefone. O shopping diz que eu nunca procurei por eles. Mas, através da Eliana, disseram que quando o shopping estivesse pronto discutiriam com a comunidade o que dava para fazermos juntos. Nunca apareceram”, lamenta Rosana.

Procurado, o Shopping JK Iguatemi manteve o silêncio e não se manifestou até o fechamento desta matéria.

A cor da favela

José Pedro Silva, 51, representa a cor da favela. Mas chame-o de Zezinho. Assim é conhecido o pernambucano, reciclador de materiais, sorridente, carismático, que deu vida aos muros da comunidade. “A favela era muito cheia de palavrão, tinha um aspecto pesado. Então, eu comecei a desenhar e o primeiro desenho ficou muito feio. Ouvi muita gente dizendo para eu não desenhar mais nas paredes. Gente que nunca fez uma linha no papel vinha me diminuir, mas aquilo me deixava mais forte. Aí pensei em me aperfeiçoar e voltei a fazer vários”, conta.

José Pedro Silva o Zezinho (beatlemaníaco)

Zezinho mostra sua arte (Foto: Fabrício Amorim)

A inspiração para os desenhos de Zezinho passa por sua fé, pelos colegas e familiares, como a professora Ana Cecília e as filhas; até a paixão pelo que define ser a melhor banda do mundo: Os Beatles. “Sou totalmente fã dos Beatles. Já me ofereceram muito dinheiro pela minha coleção de discos de vinil da banda. Não aceito! Desenhei até o rosto do John Lennon aqui na comunidade. A minha preferida deles é “Let it Be”, afirma.

Os desenhos e o gosto musical do reciclador rederam matérias em jornais e presença em programas populares, além de um registro que virou cartão postal pelo mundo. Um fotógrafo clicou a frase que Zezinho pintou no muro na comunidade: “Imagine Lennon in my Life”. Dessa maneira, o profissional ganhou o prêmio de melhor fotografia no World Press Photo de 2005, na categoria ‘Cotidiano’.

Mais do que qualquer coisa, Zezinho é um eterno sonhador que agora enxerga no horizonte a possibilidade de mais uma realização. “O sonho da moradia está, aos poucos, virando realidade. Mas o maior sonho do Zezinho nunca vai ser concretizado porque ele é movido pela paixão de viver e de ver todos bem.”, finaliza.

Confira abaixo uma galeria de fotos:

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