“Pra não termos mais um depósito de gente”

Ocupação do MMRC no Jardins promove a integração entre moradia digna e cultura

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(Fotos: Júlia Dolce e Marcela Reis)

Por Júlia Dolce e Marcela Reis

Durante a abertura da Copa do Mundo de 2014, no dia 12 de junho, um grupo de 150 pessoas vestidas de verde e amarelo saíram de pontos diferentes ao redor do MASP e seguiram para o Edifício Vicente Gravina, na Rua Pamplona, 935. Os supostos torcedores, na verdade, são membros do Movimento de Moradia da Região do Centro (MMRC) e representantes dos coletivos Androides Andróginos, Rosa Negra e Movimento Passe Livre, convidados pelo MMRC para ocupar o edifício, abandonado há mais de cinco anos. O disfarce e a data escolhidos foram estratégias para proteger as 30 famílias que ocuparam o local, além de posição política crítica em relação ao Mundial.

A ocupação de prédios abandonados para moradia ou projetos culturais vem se tornando muito frequente no país. O coletivo Androides Andróginos, por exemplo, ocupou juntamente com 100 artistas o prédio Ouvidor 63, no centro histórico, no dia 1° de maio, com o objetivo de criar um centro cultural.

Já o MMRC, que tem a luta por moradia como atividade central, foi um dos movimentos que articulou a ocupação do Edifício Mauá. Após sete anos de resistência, a prefeitura comprou neste ano o prédio onde vivem 200 famílias. Porém, segundo Guilherme Land, comunicador social e coordenador do MMRC há dois anos, a legitimidade da ocupação só será feita “nos moldes do governo”. Apenas parte das famílias poderão continuar vivendo no Mauá, sendo que 80% do prédio será destinado a programas habitacionais do governo.

O Edifício Vicente Gravina é o primeiro da região dos Jardins – uma das mais elitistas da cidade de São Paulo – a ser ocupado, e segundo Andy Marshall e Talitha Bewlay, integrantes do Androides Andróginos, pertence a uma família acumuladora de imóveis.

O prédio, mesmo com as contas em dia, não cumpre sua função social por não abrigar pessoas, contribuindo apenas com a especulação imobiliária; “estamos trabalhando em nível humano, fazendo interação, somos um movimento revolucionário, não precisa de outra justificativa”, afirma Andy. A proposta da ocupação é unir moradia com cultura: “o objetivo é não termos mais um depósito de gente, como as ocupações costumam ser”.

O Edifício Vicente Gravina possui 29 apartamentos e a intenção do MMRC é alocar seis famílias por andar, além de criar uma área de convivência com oficinas abertas ao público e uma biblioteca. Desde o dia 12, diversas pessoas já se cadastraram no Movimento, incluindo o porteiro do prédio em frente, que irá se mudar com a família em breve.

Para fazer o cadastro, os interessados narram suas situações, habilidades e fornecem os dados básicos. Os novos moradores do Edifício não tinham condições para arcar com aluguéis abusivos ou vieram da rua. Segundo Andy e Talitha, uma das moradoras teve que sair da região do Itaquera, depois que a construção do estádio duplicou seu aluguel.

Já Kelly, era moradora de rua e vivia na Avenida Brigadeiro Luís Antônio com seu noivo. “É legal aqui, já fiz amigos e é melhor que morar na rua”. Kelly se mudou para o prédio um dia após a ocupação, pois ficou sabendo do ocorrido através de uma cientista social. Ela irá se casar no dia 28, no próprio Edifício Gravina, com a ajuda dos outros moradores.

A organização da ocupação está sendo feita coletivamente, através da troca de habilidades. “Vai funcionar por escambo, sem capital”, afirma Talitha. Os moradores conseguiram por doação uma geladeira e um fogão que serão utilizados por todos. Frequentemente as ocupações continuam se baseando no capitalismo para seu funcionamento interno, cobrando aluguéis quase tão altos quanto os dos outros imóveis, segundo Talitha. Ela afirma que essas ocupações são como “imobiliárias piratas”.

Guilherme nos mostrou os 15 andares do Edifício Vicente Gravina, batendo na porta dos apartamentos e nos apresentando aos moradores presentes. Segundo o coordenador, a ocupação tem chamado a atenção da grande mídia, mas devido à abordagem padrão, que criminaliza os movimentos sociais, os integrantes do MMRC e coletivos convidados estão evitando a exposição. Luana e João Carlos, membros do coletivo de artistas de rua Rosa Negra, permitiram que entrássemos no ambiente que ocuparam, onde seus pertences, instrumentos de trabalho e seu cachorro dividem espaço. Eles pretendem organizar uma oficina de artesanato e malabares, para promover a transformação social através da arte.

Por volta das 15h da última terça-feira (17), o prédio se encontrava praticamente vazio, pois os moradores estavam trabalhando. Em uma reunião organizada para às 19h do mesmo dia, os moradores pretendiam dar um nome à ocupação, considerando uma homenagem ao guerrilheiro Carlos Marighella, assassinado em 1969, à duas quadras do Edifício Vicente Gravina.

Desde a quinta-feira da ocupação, a Polícia Militar já foi ao local quatro vezes, reiterando a ilegalidade do ato, visto que um boletim de ocorrência já foi aberto. A família Gravina, porém, ainda não entrou em contato com o MMRC, e Guilherme acredita que estejam juntando a documentação necessária para entrar na justiça. “Vamos encher o prédio de famílias e projetos para conseguirmos ficar o máximo de tempo aqui”, afirma. As expectativas não são utópicas, “não vamos ganhar o prédio, mas o importante é a resistência, desmistificar o senso comum sobre ocupações e ter boas relações com o entorno”, conclui Andy.

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