Quem se incomoda com as noitadas na Vila Madalena?

O que ocorre hoje na Vila Madalena é consequência de uma cidade que não dispõe de espaços para confraternização, sobretudo na periferia

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Foto: Oliver Kornblihtt / Midia Ninja

Por Henrique Santana

O bairro boêmio da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, foi estabelecido como Fan Fest não oficial da Copa da Mundo da FIFA, o que vem atraindo os olhos da mídia e demandando medidas no mínimo controversas por parte do governo paulista. A invasão gringa no bairro abriu espaço para constantes reclamações dos moradores da vizinhança, com criticas relativas ao excesso de barulho, obstrução do trânsito, além da venda e uso de drogas na região. O incomodo dos residentes, no entanto, não é recente e já vem dos últimos carnavais, onde os blocos de rua contaram com grande aumento de frequentadores.

Recentemente, em coluna na Folha de São Paulo, o editor executivo Augusto Diniz, da revista “O Empreteiro” e morador da Vila Madalena há mais de 10 anos, descarregou uma série de reprovações acerca das novas diretrizes que o bairro vem tomando. Diniz, entre seus questionamentos, aponta questões que vão do barulho e a venda de drogas até o transito que vem se intensificando com a verticalização da região. “O bairro precisa de choque de ordem ‘Padrão Fifa’ há algum tempo”. No final de seu texto, o comentário de um leitor: “Eu acho ótimo que o reduto dos pe-tralhas descolados esteja sendo destruído. Quem sabe param de ficar discutindo sociologia nos barzinhos”.

Cassio Calanzas, presidente da Sociedade Amigos da Vila Madalena, também demonstrou descontentamento com os eventos, em texto publicado no portal da UOL, afirmou que deveria ser estabelecido um horário para o fim das festas. Afinal, ele acredita que ”não é justo com os moradores, que pagam um dos impostos mais caros da capital, aguentarem pancadões até altas horas da madrugada”.

As críticas talvez sejam um dos principais fatores que desencadearam à ação truculenta da Polícia Militar na última quarta-feira (2), em que policiais dispararam uma bomba de gás lacrimogêneo com a intenção de dispersar alguns torcedores, principalmente argentinos, na Vila Madalena. O comandante da operação, Major Franciscon, afirmou que o propósito da ação era de garantir os direitos dos moradores e pessoas que trabalham na região.

As opiniões e críticas citadas não são exclusividade e de fato representam a visão de grande parte daqueles que residem no bairro. No entanto, é necessário aprofundar o discurso sobre os últimos acontecimentos, começando pelo fato de a Vila Madalena ter, historicamente, uma tradição boêmia. A partir da década de 70, a região começou a ser ocupada por muitos estudantes da USP na busca por moradias mais baratas em decorrência, principalmente, do arbitrário fechamento do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP) pela ditadura militar.

Assim, a tradição boêmia começou a se desenvolver e a área passou a ser conhecida pelo efervescer de manifestações culturais, presença de músicos e artistas nas ruas e, obviamente, espaços para discussões intelectuais, consequência de uma região com grande presença universitária.

Voltemos à o que a Vila Madalena vive atualmente. Pode-se notar, a princípio, um claro processo de elitização da região; o crescimento da cidade fez com que a especulação imobiliária passasse a agregar os bairros, antes periféricos, à seus projetos de expansão. Com isso, a elitização cultural apareceu como consequência. Os grafites entram nas galerias e a música nas casas noturnas.

Dentro do mesmo processo, é evidente o crescimento da quantidade de bares, baladas e restaurantes na região, cada vez mais refinados e caros. A alta no preço dos imóveis e do custo de vida contribui, portanto, para a perpetuação da segregação urbana na cidade, na qual os movimentos de moradia como o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) faz oposição.

A Folha de S. Paulo, em outro texto, traz a opinião de algumas frequentadoras do bairro, também descontentes com a Fan Fest não oficial da Vila Madalena. A nutricionista Camila Zanini, 26, afirma:”do jeito que está, não dá. Vá à Vila Madalena, mas não me convide”, completando que “o bairro sempre foi frequentado por um pessoal despojado, descolado e bonito, mas, agora, as ruas estão tomadas por um público bem diferente”.

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Foto: Oliver Kornblihtt / Midia Ninja

Obviamente abusos sexuais e atitudes machistas são recorrentes em tais eventos e não devem ser ignorados, no entanto, a intervenção do governo é praticamente nula  nessas questões. A polícia se restringe a atuar apenas quando o que está em jogo é o sono da elite paulista.

O que ocorre hoje na Vila Madalena é consequência de uma cidade que não dispõe de espaços para confraternização, sobretudo na periferia. Os eventos são isolados e, durante o carnaval e comemorações de jogos, da Copa do Mundo no caso, o povo tem a possibilidade de tomar as ruas e democratizar a festa.

A chamada Lei do Pancadão em São Paulo, regulamentada em janeiro desse ano, é prova de como o direito ao lazer vem sendo gradativamente restrito, com mais força nos bairros periféricos. A Lei, que restringe o uso de som automotivo nas vias públicas, tem claramente a intenção de inibir os famosos pancadões de rua, que ocorrem, em sua maioria, nas perifeiras da cidade.

A equação é simples: o lixo e o barulho são reflexos da grande concentração de pessoas que é consequência da falta de locais para integração. Além disso, a promoção de uma Copa do Mundo não se limita aos estádios de futebol. Assim, é necessário ponderar as críticas frente à ocupação das ruas da Vila Madalena.

As oposições feitas por moradores e enfatizadas pela grande mídia se limitam à visão elitista de bom comportamento bombardeada pelos meios de comunicação e internalizada pela população. O que acontece na Vila é reflexo de uma sociedade segregada geograficamente e econômicamente, em que brancos e ricos estão nos estádios e nos centros da cidade (veja pesquisa realizada pelo Datafolha) enquanto pretos e pobres são enxotados para as regiões periféricas.

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