Das ruas ao pancadão: entrevista com MC Garden

A Revista Vaidapé entrevistou o músico Mc Garden, famoso por um vídeo lançado no contexto das manifestações de junho do ano passado.

A música intitulada “Isso é Brasil” conta atualmente com mais de 2 milhões de views. Se os funkeiros Cidinho e Doca, em “Rap da Felicidade” cantavam refrões como “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”, evidenciando a realidade das favelas e as repressões existentes na periferia, Garden traz consigo temas mais panorâmicos, saindo do recorte da comunidade e abordando aspectos mais gerais da sociedade. Os temas sociais que emergiram com grande força e repercussão durante as jornadas de junho são recorrentes nas letras do Mc, que caracteriza sua música como um “funk consciente”.

A entrevista começou permeando temas relativos à música, deixando claro que sua maior influência sempre foi Raúl Seixas. Sobre o polêmico funk ostentação, Garden afirmou não ser contrário ao estilo musical, argumentando que “é valido um moleque, que nunca teve nada, quando conseguir alguma coisa falar: ‘olha eu fui capaz’”. Enfatiza, no entanto, os problemas relativos a uma sociedade consumista e materialista:

“Antes o moleque ia para o baile funk de chinelo e ele era feliz, hoje em dia ele tem que ter um tênis de 900 reais para socializar”.

Captura de Tela 2014-07-07 às 16.40.53

Tratando a relação entre rap e funk o músico aponta o que acredita ser a raíz em comum entre os dois: “São irmãos de berço, o rap veio da favela e o funk também”. Garden também enfatiza sua posição sobre a confluência de estilos, acreditando que e a liberdade do músico, de transitar entre diversos estilos, deve ser conservada: “não tem que ter um rótulo falando que Mc Garden é funkeiro. Mc Garden é músico”.

Voltando a temas relativos à sociedade e política, veio à tona a discussão sobre a chamada Lei do Pancadão, regulamentada em Janeiro desse ano. A Lei, que restringe o uso do som automotivo em vias públicas, tem a intenção de inibir a realização dos pancadões de rua na cidade. Nesse sentido, Garden argumenta: “Não precisava ter a Lei, deveria ter bom senso do pessoal, o som alto todo o dia incomoda com certeza, agora, proibir, principalmente na quebrada que tem poucas opções de lazer, eu acho que não é justo”. O Mc em sua fala evidencia um processo de gradativa restrição do direito ao lazer, mais explícita na periferia, que, com a falta de parques, praças, eventos acessíveis e, principalmente, transporte público, ligando o centro à periferia, tem nas festas de rua uma forma de concretizar tais momentos.

Completando a entrevista, Garden fala sobre os movimentos iniciados no ano passado e suas perspectivas sobre as mudanças que devem ocorrer. Assim, o músico afirma: “o que tem que mudar mesmo é a mente da sociedade. Tanto quem é boy quanto quem é da favela tá no mesmo barco, é o povo”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s