Jogo do Brasil, remédio pro rim e o busão

por Victor Santos

Hoje, debaixo de leve chuva caminhei para o ponto de ônibus, ao som de “War” na voz do Bob Marley, pouco esperei a chegada do busão quentinho. Ao entrar, sentei ao lado de uma moça que deveria ter algo em torno dos 60 anos.

Ilustra Busao

Ilustração: Fernando Imai

Enquanto passava por notícias sobre a cidade me dei por conta que estávamos conversando. Ouvi sobre o ex-namorado da sua filha, tinha acabado de ligar para ela pedindo ajuda, o conselho dado foi rezar. O ex não incomodava a sogra, a princípio, mas sua cara fechada e o desinteresse em conversar, sair, dava uma impressão de alguém chato, sem vontade, enquanto a imagem de sua filha é de uma moça que passa dez horas por dia trabalhando, batalhadora e animada, agitada, que gosta de sair e etc. Falou das condições de trabalho de sua filha em uma distribuidora, sua preocupação é o descaso, da empresa, com a segurança no trabalho.

Notei que ela carregava um remédio, me disse que saiu cedo de Pirituba, às 7h, onde mora, para ir a um posto de saúde na Vila Mariana. Foi buscar o tal remédio, para seu marido que havia feito um transplante de rim. O cara era técnico da segurança do trabalho e fazia longas viagens, trabalhava muito, gastava muito tempo se preocupando com os outros mas deixava a própria saúde de lado. Havia esperado quatro meses pelo transplante na fila do SUS, a recuperação estava tranquila. É aposentada, mas o que a tirou do mercado foi a dedicação ao marido doente. Pelo menos ainda recebem o antigo salário do marido, R$ 4200, mais alguns trocados com aulas online.

Reclama da alta do aluguel, teve que mudar de casa e de hábitos alimentares, o ocorrido inesperado, com seu amado, quase afundou o casal em dívidas.

Na farmácia, os dois remédios que ele precisa, para sobreviver custam 3 e 6 mil reais, por pacote que dura um mês. Após o primeiro mês de susto e endividamento  descobriu, com vizinhos, que poderia se cadastrar no SUS e conseguir o medicamento na faixa. Após uma noite de fila se cadastrou. Conta que normalmente encara uma fila de cem pessoas para retirar as drogas mas que hoje estava vazio.

Perto do final do trajeto comento meu receio do trânsito na volta, começo da tarde, afinal é jogo do Brasil e trava tudo. Ela me tranquiliza e comenta que nessa hora o pessoal já tá esquentando o carvão pra ver o jogo. Acha que o Brasil vai ganhar, odeia o Fred, quer que Paulinho e Willian joguem. Corintiana? Mais ou menos, o marido é e fala que o Brasil só vai ganhar com sangue corintiano em campo. Sãopaulino que sou dou uma risada, afinal, tomara que ganhe mesmo.

Ela concorda comigo que europeu não tem que ganhar copa aqui na terra do samba, discorda de minha simpatia pelos hermanos, quer mais é que eles percam feio na quarta. Mas hoje vai dar Brasil. Difícil mas vai.

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