O valor da cultura: o passado transformando o futuro

(Foto: Anne Vilela)

(Foto: Anne Vilela)

Por Gil Reis

Riqueza.  Essa é a palavra que contempla de maneira global a cultura popular brasileira. Nosso país, sempre lembrado pelo samba e pelo futebol, tem muito mais a oferecer do que simplesmente o retrato midiático contido em nossa representação. O Brasil, desde sua formação, foi contemplado por uma miscigenação, tanto de culturas quanto de cores e opiniões, que foi responsável pelo surgimento de identidades, costumes e valores característicos de grupos em determinadas regiões. Grande parte do povo brasileiro conhece muito pouco sobre a existência e a importância de culturas tradicionais e de como elas celebram e valorizam nossas raízes tupiniquins.

O advento das redes midiáticas globais culmina em uma homogeneidade de traços ideológicos e de princípios, dando origem ao que se chama de cultura de massas. Resultado de um processo social recente, a globalização contribui para o desgaste e até a extinção de certas festividades e celebrações, que necessitam resgate e valorização por parte de toda sociedade.

O tempo cíclico, antigamente marcado por festas populares e que era submetido apenas à natureza, hoje foi trocado pelo tempo linear e abstrato, que tem como marca o relógio. As celebrações características, então, representam uma volta ao tempo passado, buscando enaltecer o que se foi perdido com a descaracterização das velhas identidades, hoje sobrepostas ao mundo do capitalismo.

Por outro lado, iniciativas culturais de extrema importância ganham cada vez mais força e visibilidade dentro do contexto nacional, se tornando ferramenta importantíssima para manutenção e disseminação de culturas formadoras, que deram origem ao Brasil. Uma dessas iniciativas é o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.

O Encontro, realizado na linda Vila de São Jorge, chega a sua décima quarta edição, levando a energia e a exuberância da incrível Chapada dos Veadeiros. Com a marginalização e a invisibilidade das mais diversas festividades e celebrações culturais, a iniciativa constitui um espaço de conhecimento, auto descobrimento e, acima de tudo, de novas experiências, fomentando a vontade de abrir seu corpo e sua mente, facilitando o entendimento das diferenças existentes entre os indivíduos dos mais diversos lugares do mundo, tendo em vista que os visitantes não são exclusivamente brasileiros.

Os modos de vida, em todas as regiões do planeta, são moldados pelas características culturais e religiosas de cada grupo étnico. Na região do Brasil central, há um riquíssimo pólo indígena, que luta pela preservação de sua área nativa e pela conscientização social e histórica da importância dos índios em nosso país. Especificamente na região da Chapada, a Aldeia Multiétnica, criada em 2007 e localizada na Vila de São Jorge, traz um espaço de interação entre a cultura indígena e os visitantes. Participando de atividades que representam de maneira concreta as tradições dos índios, como pinturas corporais, oficinas de artesanato e rodas de prosa, o público se sente como um verdadeiro pertencente da aldeia e da realidade diária dos Yawalapiti, dos Kaipó e dos Krahô e de índios de outras etnias, todos responsáveis pela construção e pela prosperidade da Aldeia Multiétnica.

As manifestações musicais, que serão ingrediente importantíssimo no Encontro, reúnem elementos das culturas indígenas, africanas e também ibéricas. A Caçada da Rainha, por exemplo, é uma exibição característica do Município das Colinas do Sul, localizada no estado de Goiás. O nome concedido à manifestação vem, segundo as tradições orais passadas de geração em geração, a partir do medo que Princesa Isabel teve de seu pai, D. Pedro II, após a assinatura da Lei Áurea, que “libertou” os escravos. O Batuque da Rainha, momento onde a encenação atinge seu apogeu, refere-se à euforia dos escravos após sua libertação. A tradição dessa festa é mais uma evidência de como a cultura brasileira é formada por uma mistura mágica de signos e referências provindas de outros continentes.

Assim, podemos definir o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros como uma oportunidade única. Oportunidade de se entregar de corpo e alma para as tradições milenares que ainda são cultivadas em nosso solo. Oportunidade de conhecer um pouco mais sobre nós mesmo, sobre quem somos e de onde viemos. É, essencialmente, uma oportunidade de se humanizar, permeando a mente com percepções que possam nos levar, através do passado, para um futuro próspero, onde a igualdade será cultuada da maneira mais bela.

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