Incêndios em favelas paulistanas não acontecem por acidente

Por Rafael Crespo, diretor do documentário “Limpam com Fogo” (Em fase de finalização)

Outro incêndio em favela de São Paulo (não) abalou a capital no último dia 18 de julho. A comunidade de Paraisópolis, localizada na zona sul da cidade, e cercada pelos altos muros dos prédios que a separam do bairro do Morumbi, foi a vítima. Uma idosa morreu no desastre. Mas ela, assim como muitos outros residentes da maior cidade da América do Sul, viraram estatística.

Pixação localizada próxima à favela Vila Prudente, que sofreu com incêndios em 2011 e 2012 (Foto: Reprodução)

Pixação localizada próxima à favela Vila Prudente, que sofreu com incêndios em 2011 e 2012 (Foto: Reprodução)

O maior dos responsáveis por este comportamento indiferente em relação às desgraças ocorridas nas favelas de São Paulo é a imprensa. Em Paraisópolis, os culpados foram os mesmos de sempre: “gatos” na fiação elétrica e o tempo seco. O poder de investigação da grande mídia, seja por incapacidade ou por desinteresse, é quase nulo tratando-se casos de incêndios em favelas. Observando este caso específico, as três residências incendiadas eram, em sua maioria, construídas com madeira. Moradia é um direito absoluto no Brasil. Se famílias ainda precisam construir casas de madeira e papelão para terem uma morada, certamente a culpa do incêndio é de uma sociedade excludente, e deve ser dividida por todos os brasileiros.

Um dado que chama a atenção é que, em sua enorme maioria, os incêndios ocorridos em favelas paulistanas são coincidentes com regiões de alto valor imobiliário, além de espaços que foram pensados como palco de operações urbanas.

Confira o depoimento de Amaral, morador da Vila Prudente:

Paraisópolis é uma favela já muito bem consolidada na cidade, é a segunda maior, de modo que sua resistência para permanecer em um local de alta valorização é muito maior. O mesmo não acontece com a favela da rua Aracati. Vizinha do Viaduto Engenheiro Alberto Badra, no bairro da Penha, zona leste, a comunidade sofreu com um enorme incêndio em abril deste ano. Mais de 1.600 pessoas perderam suas casas. Naquele caso, quase todas as moradias eram construídas com madeira.

Clique no link para ver um mapa de incêndios nas favelas.

Depois do incêndio desta favela na Penha, corretores do empreendimento vizinho ofereceram R$ 2 mil para que as famílias remanescentes deixassem aquele terreno – que é público. A expulsão da comunidade foi comemorada na página do empreendimento no Facebook. Uma fonte, que trabalha em um órgão do governo e não quis revelar sua identidade, disse que foi procurada por representantes do empreendimento, um mês antes do incêndio. Questionada a respeito do que poderia ser feito para retirar a comunidade daquele local, pois, nas palavras deles, ela estava desvalorizando o terreno e atrapalhando as vendas da imobiliária.

Way Penha Incêndio

Comemoração da imobiliária, em sua página do Facebook, durante o processo de expulsão da comunidade da Penha

A ocorrência de grandes, e suspeitos, incêndios em favelas não é recente. Foi no ano de 2012 que mais se discutiu o problema. Houve um pico de incêndios na cidade e o tema virou  a pauta do momento nos meios de comunicação, tema esse quase completamente esquecido dois anos depois.

Para dar uma resposta ao clamor popular e aos boatos que se tomavam as ruas colocando a culpa das chamas na especulação imobiliária, a câmara municipal anunciou em abril daquele ano a instalação de um Comissão Parlamentar de Inquérito(CPI) para investigar os motivos de tantas queimadas. No entanto, a comissão só foi ter sua primeira assembleia efetiva seis meses depois, em setembro, e, no final, seu relatório conclusivo não apontou para nada além das mesmas especulações de início:

“Pela documentação apresentada e pelas oitivas realizadas, nosso entendimento, mesmo que de forma não totalmente conclusiva, pois reconhecemos que carece de mais elementos para um entendimento cabal da questão, é de que as ocorrências aconteceram em razão de uma somatória de fatores. Como, por exemplo, o clima (calor), a baixa umidade, a falta de chuva, a sobrecarga de energia em instalações elétricas precárias, uso de botijões de gás e principalmente a madeira, largamente utilizada nas construções, materiais de fácil combustão”.

Rogério Fernandes Moinho2

Favela do Moinho, após incêndio em 2012 (Foto: Rogério Fernandes)

Os motivos apontados pelo relatório final são absolutamente contraditórios. No mesmo período do ano, em 2013, houve queda de cerca de 70% nos incêndios em favelas mesmo com clima e umidade do ar semelhantes a 2012, a variação da umidade relativa do ar foi de apenas 1%. Os barracos também continuaram sendo de madeira, a chuva escassa e, até onde se sabe, não houve nenhuma legalização em massa das ligações elétricas em favela, tampouco os moradores passaram a ter gás encanado em seus barracos. Mesmo assim, é no mínimo curioso como os nobres vereadores membros da Comissão Parlamentar de Inquérito – todos eles beneficiados por doações do setor imobiliário em suas campanhas eleitorais – conseguiram colocar no relatório que especulação imobiliária é a única que não poderia ser considerada culpada pelos incêndios. Há de se lembrar que Gilberto Kassab era o prefeito na ocasião, e também teve sua campanha eleitoral amplamente financiada pelo mercado imobiliário.

Confira o depoimento de Dona Conceição, moradora do Morro do Piolho, zona sul de São Paulo, que sofreu três grandes incêndios entre 2008 e 2011:

Trecho do relatório da CPI: “Entendemos também que não se pode falar em incêndio criminoso, motivado por interesses imobiliários, pois até o presente momento não há nada que comprove, nem tão pouco indique tal motivação”.

Em ano eleitoral, como o de 2014, devemos repensar, mais do que nunca, como o financiamento de campanhas pela iniciativa privada pode ser nociva à sociedade.

Favela do Moinho, 2012 (Foto: Rogério Fernandes)

Favela do Moinho, 2012 (Foto: Rogério Fernandes)

Pessoas seguem perdendo suas vidas para que imóveis sejam vendidos a um preço mais alto. De qualquer forma, não perca seu tempo procurando o piromaníaco que incendeia as comunidades pobres de São Paulo. Elas já estão fadadas ao fogo. A não manutenção de sua fiação, acúmulo de lixo e, consequentemente, materiais inflamáveis e barracos construídos com madeira e papelão já são combustível e comburente. Quanto mais valorizada é a região em que a favela está localizada, maior será a vigilância para que ela não consiga, de fato, se consolidar, primordialmente construindo casas de alvenaria. Favelas não pegam fogo por acidente. Pegam fogo porque tem seus direitos ignorados pela sociedade e, principalmente, pelo poder público.

Faz-se necessária uma política de urbanização para que essas comunidades se consolidem de modo seguro, e tenham seus direitos assegurados.

Confira o trailer do documentário “Limpam com Fogo”, em vias de ser concluído após bem sucedida campanha no Catarse:

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