Três visões americanas do confronto em Gaza: A Mídia

(Foto: Basel Yazouri, para Guerrilha GRR)

Por Thiago Gabriel, de Nova York

A capa do New York Times, principal jornal da cidade, diariamente dedica a maior manchete de sua primeira página ao conflito na região de Gaza. Os bombardeios já deixaram mais de 1400 mortos do lado palestino, na sua grande maioria civis, e 66 do lado israelense, sendo 63 militares e 3 civis. Esses são os números oficiais divulgados pelos governos dos envolvidos nos confrontos, que já somam 25 dias de ataques incessantes dos dois lados.

Praticamente todos os grandes meios de comunicação norte-americanos possuem correspondentes na região do conflito. A cobertura difere bastante do que temos acompanhado em diversas regiões do globo, e depende muito do veículo que apresenta as informações.

Aparentemente bem-informados, bombardeados por manchetes vindas de todos os lados, os cidadãos americanos não encontram muitas matérias que fujam das declarações de seus líderes na Casa Branca. Em outros casos, é colocado o questionamento em relação ao apoio americano a Israel. A oposição às declarações do governo tem espaço em parte da mídia.

Desde o dia 29 de julho, as informações do lado israelense aparecem com maior facilidade, já que a região de Gaza sofre com a falta de energia, devido a destruição de uma usina no território. Dessa forma, Israel tem usado e abusado da exposição midiática, especialmente nos EUA, para tentar apresentar sua versão, diante das denúncias de que estaria agindo de maneira desproporcional no conflito. Mesmo com clara vantagem na correlação de forças, Israel adota um discurso de vítima apresentando ataques do Hamas (liderança islâmica na Palestina).

Na rede de televisão CNN, autoridades israelenses como o antigo encarregado pela política internacional do país, Dore Gold, respondia ao vivo a questionamentos do apresentador Jake Trapper. O massivo ataque israelense a civis palestinos foi o principal assunto. O jornalista questionou se o objetivo alegado, de desmobilização do grupo Hamas, teria se alastrado a uma situação fora de controle, com a morte de inocentes. As respostas são categóricas. Dore Gold afirma que não se pode acreditar nos números divulgados pelo Hamas, pois estes são parte da “propaganda do grupo para atrair apoio internacional”.

Uma reportagem divulgada no dia 31 de julho pelo New York Times questiona as declarações do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O líder afirmava que os ataques de seu país buscam a desmilitarização da região de Gaza. Suas falas aparecem em um momento extremamente propício para Israel, que conta com o apoio, além dos EUA, de uma coalizão de Estados Árabes – que inclui Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

(Foto: Basel Yazouri, para Guerrilha GRR)

(Foto: Basel Yazouri, para Guerrilha GRR)

O primeiro acordo de cessar-fogo proposto pelo Egito e apoiado pelos Estados Unidos, foi considerado extremamente pró-Israel e rejeitado pelo Hamas diante das circunstâncias. Na esteira da negativa palestina, Israel se aproveitou do contexto para apresentar a não-aceitação do Hamas como único empecilho para o fim dos confrontos na região, nos termos apresentados.

O cessar-fogo anunciado no dia 31 de julho pela ONU e os Estados Unidos, aceito pelos dois lados, foi violado uma hora e meia depois de seu início, na manhã do dia 1. Israel anunciou o retorno das atividades militares diante da acusação do sequestro de um soldado do país.

Desde então, diversos líderes israelenses têm aparecido nos canais americanos para condenar o Hamas, classificar as ações como terroristas, e justificar a retomada dos ataques. As emissoras estadunidenses vêm abrindo espaço para as falas dos israelenses e do governo americano, que pediu ao mundo para compartilhar a indignação diante das supostas ações do Hamas.

É curioso perceber que, ao mesmo tempo em que o governo norte-americano apresenta ao mundo sua contribuição para a paz, com um pedido de trégua, a circulação de informação no país produz conteúdos que ratificam cada vez mais o estado de guerra na região. Especialmente em mídias com tendências mais conservadoras.

Para isso, relativizam os números e imagens que seus próprios jornalistas atestam ao observar o conflito. Os relatos dão conta do terror vivido pelos palestinos, que convivem diariamente com ameaças de bombas sobre suas casas e, agora até sobre campos de refugiados da ONU, locais instituídos como neutros e seguros.

Em uma entrevista para a rede Fox no início da semana, um correspondente da emissora parecia constrangido pelas perguntas do entrevistador, que seguiam a linha de diminuir a gravidade dos ataques. “Sabemos que os bombardeios sobre Gaza têm acontecido com frequência, mas é verdade também que o governo israelense informou os cidadãos palestinos para que evacuassem as regiões afetadas”, disse um dos apresentadores. A reação do repórter, visivelmente desconcertado, foi afirmar que jamais poderia tomar lado de qualquer um que lance bombas sobre crianças e civis que nada tem a ver com o confronto.

Em entrevista da rede PBS com o líder político do Hamas, Khaled Meshaal, questionamentos históricos em torno da atuação do grupo. Charlie Rose formulava perguntas de maneira similar a um estadista americano buscando a mediação do conflito. Apresentava ao espectador diversas tentativas americanas pela paz, negligenciando os termos em que estas eram apresentadas. Meshaal buscava afirmar o desejo de paz palestino, na medida em que a ocupação militar israelense fosse suspensa. Sua falta de habilidade com as declarações, porém, frequentemente colocavam-no contra a parede.

Na CNN, uma entrevista com o ex-presidente israelense, Shimon Peres, exibida no dia 31, mostra um apresentador muito mais cuidadoso com suas considerações, tentando apresentar as propostas de paz vindas de Israel. Em seguida, uma reportagem atestava para o crescimento do anti-semitismo no mundo, e o perigo dos protestos a favor da Palestina pela Europa, e sua possível propagação para os Estados Unidos, onde manifestações isoladas atacam símbolos judeus.

Na edição impressa do New York Times foi publicado, no dia 31 de julho, um anúncio pago com os dizeres “Os inimigos de Israel são nossos inimigos. A luta de Israel é nossa luta. Nós estamos com Israel”

Anúncio pago de uma página no New York Times, principal jornal de Nova York.

Anúncio pago de uma página no New York Times, principal jornal de Nova York.

Tomando uma página inteira para depreciar o Hamas e evocar apelações como os ataques de 11 de setembro de 2001, ao World Trade Center, condenando o grupo islâmico, o anúncio chama os americanos a “tomarem uma ação!”. Patrocinado pelos Cristãos em Apoio a Israel, o conteúdo claramente propaga uma mensagem de ódio que nada contribui para a construção do debate e a busca pelo fim dos confrontos.

A declaração de que o presidente Barack Obama aumentou a remessa de armamentos à Israel demonstra o lado do governo americano. A escolha e execução das pautas evidencia um esforço da mídia na construção de um cenário de guerra, no qual muitos americanos (ou ao menos seu governo) claramente já teriam escolhido seu lado de combate.

Em um confronto tão marcado pelo uso da mídia em escala global por parte dos governos de Israel e Palestina, a imprensa norte-americana parece ter comprado a ideia do governo de espetacularizar ao seu jeito o conflito.

Selecionando histórias e repercussões, parte da cobertura leva o cidadão americano a acreditar na benevolência e estarrecimento de seu país para o confronto, ao mesmo tempo em que produz maior polarização e incentivos a revanchismos aos dois lados. A outra parte contesta a contribuição bélica americana a Israel, chamando atenção para seu uso contra civis palestinos, e sublinhando os abusos cometidos pelos dois lados de um conflito que polariza opiniões.

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