A pergunta que não somos acostumados a fazer é: O que damos em troca?

Ilustração de Guilherme Bampa

Ilustração de Felipe Machado Dutra

 

Por João Previattelli Guilherme Bampa Taiar

O consumo e a infância do ponto de vista oriental; o silêncio que não temos. O consumo é fundamental no sistema em que vivemos; globalizado e padronizado, estimulado pelo governo de nossa sociedade. Atualmente, 24%  da população brasileira é formada por crianças de até 14 anos, essas, protegidas pela legislação, ainda são expostas a publicidade direcionada aos jovens, ainda que não tenham a capacidade cognitiva de compreendê-las criticamente.

Somos condicionados desde a infância a sermos consumidores. Basta ligar a televisão por meia hora para assistirmos propagandas com uma linguagem infantil: “As crianças já sofrem uma pressão desde cedo: ‘você precisa estudar, você precisa ter uma carreira’. A criança perde sua infância. Mesmo após os primeiros anos escolares ainda é preciso manter um tempo para as brincadeiras”. Para Lama Norbu, coordenador de práticas e ensinamentos no templo budista Odsal Ling, “a publicidade nos passa esse valor: Você precisa consumir e só existe importância nisso. Não há um senso de balanço”.

A criança é vista como uma consumidora nesse sistema implantado, com isso, tende a iniciar sua vida adulta mais cedo. Para Lama Norbu, muito é ignorado nesse processo: “Uma das coisas que eles perdem é a liberdade de escolha. Podem até pensar que são livres, mas se alguém diz várias que ele deve comprar o brinquedo X, é quase impossível uma criança não ser influenciada”.

Prática básica na filosofia de vida oriental, a interiorização e meditação não são apenas elementos religiosos, mas sim uma forma de interpretar a vida e lidar com o cotidiano. O consumismo e seu estímulo acabam por suprimir essas práticas. “Também perdemos a privacidade. Você precisa de um tempo sozinho onde você pode ficar com seus próprios pensamentos e próprios pontos de vista; ficar introspectivo. Com as mídias sociais e publicidade, sua solidão foi absolutamente destruída. Hoje as crianças não conseguem ficar nem dez minutos sozinhas. Por isso o celular se tornou tão importante”, afirma Lama Norbu.

Diferentemente da crença ocidental, de que a criança é uma página em branco a ser moldada e desenvolvida, o budismo crê na continuidade da mente. Já nascemos com experiências de vidas passadas. Mesmo que não lembramos ou nos relacionamos diretamente com elas, respondemos as questões influenciadas por tais experiências. Como dois irmão gêmeos, que, mesmo tendo a mesma composição genética e a mesma educação, têm personalidades distintas.Com essa base, nasceu o projeto educacional do Sítio Esperança, um espaço dedicado ao ensinamento de práticas seculares, método laico independente de dogmas religiosos. O projeto acontece em parceria com escolas municipais de Lambari, em Minas Gerais.

“Tentamos passar que nada das necessidades materiais, que você pode até achar que precisa, irão realmente te satisfazer. Todos esses objetos são impermanentes e não têm um valor tão grande”, explica Lama Norbu. “Passamos para as crianças a prática de observar a riqueza de sua própria mente, ensinar a meditação, mostrando a confiança e benefício dessa concentração. Isso vai além da religião, é o desenvolvimento da mente”.

O ensino não visa formar pessoas dedicadas à religião, mas oferecer outros meios de ver a própria vida. “Um dos caminhos que ensinamos e acreditamos é o da prática na vida cotidiana. Você pode se casar, ter filhos, trabalhar, mas também dedicar tempo para o retiro e reflexão. Pode até fazer as mesmas coisas que todo mundo, mas pensando de uma forma diferente e com objetivos diferentes”.

A meditação tem um viés independente da religião. “Ensinamos mesmo a meditação. Porque a meditação pode ser apenas a observação de um objeto, ou a recitação de algo com silêncio e concentração. E qualquer professor acha ótimo que a criança desenvolva e aprenda a se concentrar”.

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