O rolezinho não morreu

Repressão aos jovens das periferias nos shoppings criou uma nova face para os rolezinhos. Agora, a internalização do preconceito é clara: menos roupas “ousadas”, mais medo

Jovens revistados pela Polícia em rolezinho no ano passado

Jovens revistados pela Polícia em rolezinho no ano passado (Foto: Reprodução)

Por Paulo Motoryn

Por mais que manchetes de jornais e declarações de prefeitos e governadores não deem tanta atenção aos “rolezinhos”, eles seguem acontecendo. Mas, é claro, a estrondosa repercussão midiática da repressão jurídico-policial aos rolês, que atingiu grau máximo após as Jornadas de Junho de 2013, deixou marcas profundas em um comportamento cultural da juventude das grandes cidades brasileiras.

Para começar a pensar no que a mídia chamou de “fenômeno”, é preciso entender que os rolezinhos não começaram no ano passado. A ida em grupo aos shoppings é um programa de lazer para a juventude há algumas décadas. A privatização da cidade, que reprime e criminaliza a ocupação do espaço público – ora pela repressão, ora pelo medo –, infelizmente tem impactos diretos em termos de cultura e comportamento: o rolezinho é resultado de tal política.

O esvaziamento das ruas, parques e praças pelos jovens do centro da cidade decorre, principalmente, de uma sensação de insegurança generalizada nas famílias privelegiadas economicamente. Por isso, bem como a juventude das periferias – que nem dispõe de espaços públicos equipados como os das regiões centrais e sofre uma repressão brutal da Polícia Militar –, os “boys” também dão os seus rolezinhos em shoppings – contudo, passam longe de serem reprimidos.

A correlação de forças é clara na fala de Drica, 14 anos, organizadora de rolezinhos nos shoppings Tatuapé e Arincaduva que acabaram em lamentáveis cenas de violência policial: “Podem chamar de pobre, de vândalo. Nós não temos nenhum espaço de lazer. E os boys dão rolezinho todo dia, por que a gente não pode?”, diz ela, moradora da zona leste de São Paulo.

A repressão aos rolezinhos no ano passado teve a Polícia e o Judiciário como personagens centrais. O braço armado do Estado protagonizou cenas de ilegalidade em revistas, prisões, agressões e outras de suas gentilezas habituais. Tudo isso, na maior parte das vezes, sem que lojistas comprovassem furtos ou roubos. O Judiciário, por sua vez, interviu legitimando o pedido dos shoppings para vetar a entrada de determinados jovens, em uma clara institucionalização de preconceito e – sim, senhor – de racismo.

As publicações de um evento no Facebook que convoca para um grande rolê em um shopping de Itaquera, na zona leste de São Paulo, dão alguns exemplos de uma nova face dos rolezinhos, que agoram temem e evitam ao máximo a reação da Polícia e da segurança privada. Em uma das postagens no grupo, um jovem afirma: “Não vamos correr, causar, só vamos curtir e zoar. Não é para colocar a geral numa fria”. Outro diz: “Vamos discretos, hein?” – se referindo às vestimentas dos colegas.

Conversando com os rolezeiros, a internalização do preconceito e o medo de jovens em função das situações de constrangimento e violência que atingiram seu auge de repercussão no ano passado são traços claros nos discursos. Divo, adolescente paulistano e organizador de rolezinhos  na zona leste da cidade, afirma: “A gente fala para curtir na disciplina, sem brigas”, visivelmente ressabiado em dar uma entrevista.

Aos que se pautam pelas manchetes dos jornais, é preciso esclarecer: o rolezinho não morreu e nem vai morrer tão cedo. Aos que também querem se divertir, brincar e beijar – sim, rolezinho tem tudo a ver com a sexualidade dos adolescentes –, basta uma simples busca nas redes sociais para achar um perto de você. Aos que insistem em criminalizar nossos jovens, só há o que lamentar.

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