Humanidade é má

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Ilustração: Matheus Bagaiolo Raphaelli

Por Vinícius Lima

Eu sempre acreditei que as pessoas eram boas, cresci em Paraisópolis, lá me dava muito bem com todo mundo. Moreno, esguio, rápido e com a perna fina, desde criança jogava minha bola descalço na quadra da pracinha com os meninos que estudavam comigo. Depois, a gente sempre aparecia na venda do Paulo e comprava um refrigerante pra todo mundo.

Essa era minha rotina quando moleque, cresci nisso aí que chamam de favela, mas eu sempre chamei de casa. Cresci no meio do crime e dos mais perigosos, mas qual era o problema? Eles sempre me davam uma moeda pro Guaraná, seguido de um “juízo em moleque, vai estudar”. Fui entender o conselho só depois.

Quando minha mãe ainda trocava minha fralda, meu pai morreu num “suposto tiroteio” em frente à borracharia dele perto de casa. Nessa época, minha mãe tinha que se virar com um salário de doméstica, ela trabalhava em duas ou três casas por dia para eu e meu irmão mais velho não passarmos fome. Meu irmão, indignado com a condição que vivíamos, foi para o crime. Na época, ele tinha 19 anos e dois anos após sua decisão, morreu.

O tempo passou e junto com o luto da família pelas perdas do meu pai e do meu irmão. Minha mãe então recebeu uma ligação: “Alô, Dona Ivone. Aqui é a Marcia, diretora do colégio Morumbi. Eu preciso de uma empregada e uma amiga minha do salão me falou sobre você. A proposta é a seguinte: você gostaria de trabalhar como faxineira do colégio?”.

Minha mãe topou na hora. Eu tinha uns 14 anos. O primeiro dia de trabalho dela foi o meu primeiro dia de aula no colégio Morumbi. Ao chegar lá, entro na minha sala e sou mal encarado por um grupo inteiro de meninos e meninas brancos, chego até a pensar que minha roupa está suja, mas minha mãe havia comprado um uniforme novinho só para este dia.

A segunda frustração foi quando a professora entrou, já jogou um monte de coisas na lousa que eu não entendia. Era “X, Y, Z” e ela dizia ainda que era professora de matemática, na minha outra escola, matemática só tinha número. Foi aí que fui entender o conselho do rapaz que me dava uma moeda pro refri na esquina e descobri que escola era para estudar, porque na minha eu só jogava bola.

Os anos foram passando e minha rotina continuava a mesma, da casa pra escola e da escola pra casa, a diferença era que eu me movia nesse trajeto de ônibus, enquanto meus amigos o faziam num luxuoso Porsche. Esse fato apenas contribuía para o meu apelido, “o filho da faxineira”. Não que isso fosse motivo de vergonha, longe disso, me orgulhava e muito da minha mãe. Eu a apresentava para todos meus colegas.

Na escola, tirava as melhores notas, fazia todas as lições e o mais legal, jogava bola melhor que todos os outros meninos. Gostava sempre de jogar descalço, os outros com suas chuteiras caríssimas da Nike e da Adidas tinham intimidade nenhuma com a bola. Eu era sempre o primeiro a ser escolhido. Adorava isso, os meninos me idolatravam.

Comecei a ficar muito orgulhoso de mim mesmo, pois me achava um deles, comecei a sair com o pessoal e tudo, beijava até menina branca. O auge do meu orgulho foi no terceiro ano, quando recebi o convite pra fazer um trabalho na casa de um colega de sala, mal sabia eu que era só por causa das minhas boas notas que ele tinha me convidado. Escolhi a melhor roupa e me preparei a semana inteira para o dia.  Ao chegar lá, naquela mansão, não sabia nem como me comportar. Fomos para o quarto do meu amigo e fiquei o dia todo fazendo trabalho enquanto ele apenas jogava videogame. Já de noite, sua mãe chega e abre a porta do quarto, a madame então deu um grito: “Tira esse negrinho daqui, vou chamar a polícia!”

Saí de lá às pressas e o caminho inteiro da casa do meu amigo até a minha casa, se é que depois de pisar na dele, posso chamar a minha assim, pensei no que eu tinha de diferente dele, pois me sentia tão parte do grupo, me achava tão legal, achava que meus amigos eram mesmo meus amigos e gostava pra caramba de ser chamado de “o filho da faxineira”. Ao chegar, só deitei, botei meu fone e fui escrever.

No decorrer dos dias, minha bola foi baixando, a ficha foi caiu e meus olhos foram se abrindo. Em coisas simples como, nos debates na aula de sociologia, em que eu era o único contra a redução da maioridade penal, ou que não votaria no atual governador; nas rodas de piadas, as quais eu não podia entrar, pelo contrario, sempre que eu chegava, ela se espalhava; ou até mesmo no velho “filho da faxineira” que soava cada vez mais ofensivo. Aos poucos, fui vendo que ali não era meu lugar. Só queria me formar e ir para a faculdade, como se lá tudo mudasse.

Os anos se passaram lentamente, cada vez mais eu me sentia como um estranho no ninho naquele colégio, mas acabou. Quando saíram os resultados dos vestibulares, eu vi que tinha passado em três públicas fora de São Paulo e algumas particulares na capital. Como não queria sair da cidade, aproveitei a bolsa integral em jornalismo que eu consegui numa conceituada universidade no centro de São Paulo, me matriculei e aproveitei minhas férias.

Passaram-se os dias de descanso e logo no primeiro dia de aula, acordei às cinco da manhã e peguei um ônibus da zona sul até a rua da consolação, que era onde ficava a faculdade. Estava animado, porém logo ao entrar, a história se repetia: todos da sala me encaravam e logo no primeiro debate sobre a redução da maioridade penal ouço “tem que mandar prender mesmo”, “todo preto favelado é bandido” e “aquele neguinho, outro dia, pegou meu iPhone”. Mas ok, esse dia passou e muitos como esse também se passaram.

Então vivia naquela faculdade com uma sensação de não pertencimento, mas ao mesmo tempo de comprometimento pensando que em algum dia, meu esforço por ter as melhores notas e escrever as melhores matérias da sala fosse um dia recompensado com um emprego bom.

Uma hora chegou a vez da recompensa, o dia em que eu iria mostrar pra minha sala inteira, inclusive pros professores e também para todo o colégio Morumbi, que o “filho da faxineira” poderia se tornar um grande jornalista. Era a  minha primeira entrevista de estágio num jornal. Eu estava tranquilo, tinha eu e mais um. Meu concorrente era da minha turma, ele só dormia em aula, não lia os noticiários e nem se empenhava para escrever matérias. Fiz a entrevista muito bem, fui para casa feliz.

Porém, três dias depois a moça do jornal me ligou falando que não havia conseguido o estágio. Inconformado, fui ler um pouco mais sobre o jornal, e descubro que o menino que era meu concorrente era filho do dono da empresa. Já eu era apenas o “filho da faxineira”.

Não sabia mais o que fazer, eu que um dia acreditei que o mundo era lindo, pois conhecia apenas Paraisópolis e pensava que todas as pessoas eram boas, descobri então que o rapaz que dava uma moeda para eu tomar refrigerante era o cara que movimentava todo o tráfico da comunidade, no qual meu irmão se envolvera; descobri também que tanto as crianças, quanto os alunos da faculdade me encaravam, pois sou negro; fora isso entendi que eu sempre era a minoria nos debates porque não interessava pro pessoal da minha sala me ver bem, eles queriam me ver na cadeia ou morto.

Como de costume, sempre que estou triste, fico com a minha mãe e vejo TV com ela. Passava o jornal, só tragédia, conflito em Gaza, EUA bombardeando Iraque, seca em SP, estádios desabrigando pessoas, assassinatos, suicídios e cada vez mais tragédias, mas eu aguentei até começar a novela que minha mãe adorava para assistir ao lado dela.

O Plantão da Globo então interrompe a novelinha com a seguinte notícia: “Morre agora candidato a presidência em acidente de avião”. Para minha mãe, só mais uma tragédia. Já eu, cansado de tanta notícia ruim, dou um abraço e um beijo bem forte nela e vou para o quarto mexer no Facebook. Lá, vejo as seguintes postagens “dia 13, PT 13”, “49=4+9=13”. Não bastando os acontecimentos, existem ainda as teorias das conspirações e as piadas oportunistas. Desliguei meu computador, botei meu fone e comecei a ouvir meu rap, dei play numa das faixas que eu mais gostava, “Jesus Chorou”, mas mesmo com as centenas de vezes que ouvi essa música, nunca um verso teria feito tanto sentido: “Humanidade é má e até Jesus chorou”.

Refleti naquilo tudo e passou um filme da minha vida com aquela música de trilha: “o crime é mal e até Jesus chorou”, “meu irmão é mal e até Jesus chorou”, “meus amigos da escola são maus e até Jesus chorou”, “a faculdade é má e até Jesus chorou”, “o Jornal é mal e até Jesus chorou”, “Israel é mal e até Jesus chorou”, “Palestina é má e até Jesus chorou”, “o EUA é mal e até Jesus chorou”, “teoria da conspiração e piadas são más e até Jesus chorou”, “eu sou mal e até Jesus chorou”…

Em tempos de tragédia e piadas com a morte, fico com as palavras do poeta para qualquer tipo de explicação: “a humanidade é má e até Jesus chorou”.

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