Povo forte

(Foto: Anne Vilela)

(Foto: Anne Vilela)

Por Carolina Piai

Towe significa fogo em Ia-tê, língua materna dos Fulni-ô. O povo indígena, de origem pernambucana, é o único do Nordeste que conseguiu preservar a própria língua. O português também é ensinado na aldeia, assim como o karate. Towe, além de ser professor da arte marcial, fala português muito bem. Tem fala pausada, que hora ou outra oscila e ganha certa velocidade. A firmeza na voz, por outro lado, é constante. Quando canta aquece e aconchega, assim como o fogo. Desperta o coração de qualquer um: canta forte.

Suas músicas têm beleza incontestável: as diversas vozes que as compõem se completam. Não são semelhantes e não cantarolam as mesmas palavras ao mesmo tempo – variam em uma composição quase perfeita. As mulheres, em um tom sutil; os homens, em tom mais firme. Todos com pinturas que remetem a animais espalhadas pelo corpo. “É a identificação de nossa floresta, dos nossos animais, da nossa convivência com eles. Tem sabedoria forte. Não fala, mas tem sabedoria”, conta Towe, liderança Fulni-ô.

“Quando a gente canta e dança se sente mais forte, revive mais, fala com os antepassados, com o grande espírito, com a floresta, com a água, com os anciões que já morreram”. Assim relata o homem que toma conta do pátio quando os Fulni-ô entram em cena – tudo acontece ao seu redor. Quando perguntado sobre como se sente nos momentos em que canta fica um tanto quanto desconcertado, mas ao responder é certeiro e carrega em sua voz uma honra transparente. “Mais forte, mais energia. Eu me sinto até mais novo espiritualmente”, afirma, com um sorriso torto e tímido estampado no rosto.

No entanto, a felicidade nem sempre acompanha os Fulni-ô. Seus cânticos remetem ao que lhes é sagrado e, para eles, a mãe-terra é uma dessas energias sagradas. A demarcação de terra, por sua vez, já prejudicou e ainda prejudica muito esse povo. Atualmente, na parte central da reserva indígena em que vivem, está a cidade de Águas Belas. Para mostrar, Towe desenha o espaço na areia, com um pequeno galho: “Essa terra todinha aqui é nossa. E o homem branco aqui no meio, mandando”, indica, insatisfeito.

Hoje, os Fulni-ô, não conseguem viver apenas de roça, pesca e caça. É necessário que saiam da aldeia para trabalhar na cidade. Porém, os trabalhos costumam ser precários, apesar de muitos indígenas concluírem a graduação. Towe aponta um sobrinho: o garoto está sentado em um tronco fincado ao redor da fogueira que nos une. “Esse aí já é formado”. Mas não consegue emprego. “Não tem espaço pra índio no mercado do homem branco”.

Sob essa situação de constante instabilidade, encontram-se os povos indígenas do Brasil. Towe, apesar da atenção que costuma dar aos visitantes, sofre a perda de seu irmão. Santxiê Tapuya faleceu há cerca de um mês e era muito ligado à luta política pela terra. Inconformado, o líder tenta explicar: “Foi muita injustiça. Você já pensou a pessoa tá lutando, tá lutando e o governo bota trator, coloca tudo em cima. Sabe, cada dia. E aquilo vai…”. O silêncio é ocupado pelo olhar semicerrado de Towe e por seus gestos tenros: faz como se pegasse algo e colocasse no peito. Resgatando a calma que lhe é familiar, volta a falar: “Chega um dia que parece que baixa a pressão nele, e aí vai. E os espíritos também viram que ele tava sofrendo e levaram logo ele”. Segue, já com maior rigidez: “Vai descansar lá em cima. Lá em cima você vai ter sua terra sagrada. Aqui tá poluído, tá podre essa Terra”.

A mãe-terra, para o líder, está triste. Entre um gole de café e outro, preparado sob a fogueira, com uma boa dose de açúcar, diz: “A mãe terra é viva. Tem que cuidar, respeitar, orar por ela. Você só fica em pé em cima dela porque ela equilibra a gente”. Segue assim, esmiuçando suas crenças e valores: “A mãe-terra é energia sagrada do grande espírito. Assim como o céu e a floresta. Essa é a nossa casa”. O grande espírito de quem Towe fala é o dono de todas as formações da Terra e se chama Ei Djá Duá.

“Como escreve?”, questiono.

“Ah, eu não sei escrever”.

Desse modo, descubro que algumas palavras de sua língua não são escritas.

“Por quê?”

“Porque não deve”, assegura.

Todo ano, os Fulni-ô migram para outra região mais afastada e passam três meses isolados dos não-índios. Lá, realizam rituais como o Ouricuri e  podem viver apenas de roça, caça e pesca – assim como desejam. “A nossa cultura é muito fechada. Tem coisa que a gente não mostra. Porque se mostrar nós somos cobrados. Por isso que não nos exterminaram. Há mais de 500 anos nós temos essa existência toda. Forte. Forte”.

Que os Fulni-ô, apesar de todas as dificuldades que encontram em sua sobrevivência, sigam assim: fortes, fortes, fortes.

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