Público ou privado? As cidades do medo e da repressão

O tripé institucional, formado pelo Estado, as grandes empresas e a mídia, atua em prol de uma sociedade antidemocrática que contempla os interresses neoliberais

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Ilustração: Matheus Bagaiolo Raphaelli

Por Henrique Santana

As recentes ações truculentas e repressivas de instituições responsáveis pela segurança pública, assim como a conivência de outras instâncias governamentais, apontam como as técnicas de repressão, justificadas pela manutenção da ordem pública e pelo medo de um caos abstrato, estão em congruência entre os diversos órgãos administrativos e, ao mesmo tempo, na contramão de uma sociedade democrática.

Dentre as técnicas coercitivas e doutrinadoras na constituição do Estado Moderno, um mecanismo – mais fluído e não tão facilmente identificável – destaca-se: o uso do medo, que constitui-se como ferramenta fundamental, por exemplo, para apaziguar os efervesceres populares.

Nosso sistema burocrático claramente não contempla as demandas populares e, muito menos, a democracia. Pelo contrário, age em favor de interesses ligados a setores privados da economia, paralisa e parasita a vida pública.

A mídia, em harmonia, atua como suporte, em prol da manutenção do status quo – isso quando não pende para um retrocesso conservador. Enquanto a polícia e o judiciário agem de forma feroz, os veículos de comunicação continuam omitindo a privatização do sistema político – em função do financimanento privado das campanhas eleitorais – e bombardeando atos. A cobertura  dos protestos, e, mais especificamente, da tática black bloc nos grandes veículos é um grande exemplo do poder de persusão dos oligopólios detentores dos principais meios de comunicação.

Desde junho do ano passado, os black blocs foram caracterizados como uma espécie de facção terroristas, composta por – repetindo os jargões  – “vândalos” “baderneiros” e “mascarados”. Independentemente da legitimidade ou não da tática, o curioso é notar o poder das instituições midiáticas na formação de opinião de grande parcela da população.

Após um ano da criação dos slogans, que visam classificar o  bom e o mau manifestante, é possível notar os termos, repetidas incessantemente pelos telejornais, projetados no discurso de significável parcela da população. A estratégia é clara: a instauraração da sensação de pânico generealizado frente ao “caos” da destruição, causada pela ação direta e potencializada pelas lentes fotográficas dos jornalistas.

Afinal, se no período de um ano as palavras proferidas sistematicamente nos principais canais da televisão foram responsáveis por uma internalização nacional do “certo” e “errado” no âmbito dos protestos, o que dizer de toda uma produção jornalística comprometida com setores privados e travestida de imparcial?

Obviamente, a escolha das palavras, bem como a informação a ser noticiada, expressam a posição e o ponto de vista do autor e do veículo – mesmo que de forma inconsciente. Interessante seria uma verdadeira democratização dos meios de comunicação, que contemplasse as mais diversas formas de pensar, falar, ouvir, dançar, cantar e noticiar.  O problema é que travamos no poder monopolista das grandes empresas de comunicação.

Um exemplo das amarras entre jornalistas e o setor privado pode ser observado em uma valorização cada vez maior de premiações, patrocinadas por grandes empresas, para reportagens que vão de acordo com seus interesses e áreas de atuação, como ocorre com frequência no setor agro-ambiental e diversos outros segmentos empresariais.

Os grandes grupos econômicos mostram-se cada vez mais atuantes dentro do jogo político. Prova é um recente levantamento produzido pela Pública -Agência de Jornalismo Investigativo. Os gráficos apontam que, entre 2002 e 2012, as quatro maiores empreiteiras do país (Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS) foram responsáveis por mais de R$ 479 milhões em doações para partidos e candidaturas.

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Infográfico da Pública- Agência de Jornalismo Investigativo aponta a evolução das doações à campanhas (Infografia: Bruno Fonseca)

O lobby promovido por grandes empresas, pela aprovação de emendas e uma legislação mais permissiva à exploração nos leva também a um caso curioso. Recentemente, a sanção de uma mudança no artigo 144 da constituição, publicada pelo Congresso no dia 17 do ultimo mês, abriu brecha para a implementação de porte de armas de fogo por agentes de transito.

A proposta veio do deputado Hugo Motta (PMDB-PB) e, segundo o presidente do Sindicato Intermunicipal dos Agentes de Trânsito da Paraíba, Antônio Coelho, é algo que já deveria ter sido implantado, afinal, “ao abordarem um veículo, ele [o agente de transito] não sabe quem vai encontrar, se o condutor é um criminoso ou não”, completando ainda que “a arma tem efeito psicológico, pois impõe respeito e certamente diminuirá o nível de desacato”.

Talvez a mudança pareça insignificante à muitos olhos, no entanto, evidencia o uso do medo como justificativa para o fortalecimento dos aparatos repressivos – inclusive por agentes do Estado que tem para si apenas uma função delegada: a organização do trânsito.

A mídia corrompe os fatos e trabalha anexada aos interesses dos grandes grupos econômico, que, por sua vez, atuam livremente dentro dos governos, através de um lobby corruptor. Em último plano, a população se vê envolta e limitado por toda uma máquina burocrática que age em um único sentido: controlar e apaziguar as massas, enquanto perpetua a hegemonia do mercado.

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