Povo segue nas ruas e manifestações acumulam tensões em Missouri, EUA

Crescem também manifestações defendendo a ação policial, e testemunhas surgem para confirmar suas versões do episódio. Possibilidade de prisão do policial Darren Wilson parece distante.

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Estudantes da Universidade de Howard protestam com as mãos para o alto, símbolo das manifestações. (Reprodução Facebook)

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Os protestos em Fergunson, no estado do Missouri, já duram mais de uma semana desde o assassinato de Michael Brown pelo policial Darren Wilson. A mídia voltou os olhos para os conflitos e tem destinado a maior parte de sua cobertura diária à tensão que envolve o caso.

A tomada das ruas pela comunidade local teve vários momentos distintos. Iniciada de maneira totalmente espontânea, reuniu negros e pessoas cansadas dos abusos policiais na região. Após protestos pacíficos, a revolta levou a saques e destruição de lojas por parte de alguns manifestantes.

A resposta policial foi utilizar táticas e armamentos militares para controlar a situação. A truculência não foi bem recebida pela população americana e, surpreendentemente, nem a mídia tradicional, em sua maioria, viu com bons olhos. Jornalistas e cidadãos americanos condenam o fato de ter uma cidade americana sitiada, comparando as cenas a um campo de guerra. Curiosamente, muitos deles apóiam ocupações militares do governo americano em conflitos internacionais. Exemplos recentes são a nova investida norte-americana no Iraque e o apoio à Israel no conflito em Gaza.

Uma autópsia pedida pela família revelou que Michael Brown levou ao menos 6 tiros. Quatro deles próximos ao braço direito e dois na cabeça. A autópsia confirmou que o último tiro, na região de cima da cabeça, foi o único sem a mínima chance de sobrevivência. Para a família, os resultados confirmam a versão de muitas testemunhas, de que Brown estava desarmado e não ofereceu resistência.

Ao redor do país, manifestações espalharam-se exigindo justiça pelo assassinato do jovem. Mesmo assim, passeatas também reuniram americanos em apoio ao oficial Darren Wilson. Uma testemunha identificada como “Josie”, afirmou a uma rádio local que Brown teria avançado sobre Wilson, antes de ser alvejado pelo policial. Essa versão contrasta com todas as outras testemunhas apresentadas, que afirmam que o jovem morreu com os braços para cima, pedindo para que Wilson não atirasse. A polícia disse que o relato da suposta testemunha é muito parecido com o do oficial, blindado pelo departamento para não se manifestar publicamente.

No entanto, a população do bairro em que Michael vivia, onde 70% dos moradores são negros, reafirma que ele foi assassinado injustamente. Após o início das manifestações violentas, em uma tentativa de acalmar os ânimos das manifestações, o governador do Missouri, Jay Nixon, designou Ron Johnson para comandar as ações policiais nas ruas. Um capitão da polícia negro e oriundo da comunidade de Fergunson.

A primeira reação foi positiva por parte da comunidade. Muitos sentiram-se prestigiados por ter um cidadão mais próximo de sua realidade comandando a relação entre polícia e manifestantes. Na primeira noite, foram vistas conversas entre os cidadãos e policiais, e até abraços e sorrisos quando os oficiais caminhavam próximos aos protestos.

No dia seguinte, a polícia divulgou o nome do policial responsável pelo assassinato, o oficial Darren Wilson. Na mesma entrevista, foram exibidas imagens de uma câmera de segurança de uma loja de conveniência. O vídeo mostra um homem negro, fisicamente muito parecido com Brown, junto a outros dois amigos. A polícia afirma que eles teriam assaltado a loja para roubar cigarros e, em seguida, Brown teria empurrado o vendedor após uma discussão. As imagens não são claras o bastante para acusar o jovem.

Após as declarações, o próprio chefe da polícia local, Tom Jackson, afirmou que Wilson não abordou Brown por conta da suspeita de roubo. Ele foi parado por estar “bloqueando o tráfego”. Sua ação, portanto, nada teve a ver com o suposto roubo, para o silêncio de muitos comentaristas que já alegavam os tiros como legítima defesa, e a abordagem como correta.

No domingo (17), a polícia apresentou seus equipamentos para a contenção de distúrbios no local, os protestos continuavam acontecendo incessantemente. Centenas de oficiais, balas de borracha, gás lacrimogênio e veículos blindados desfilavam no local onde os protestos tem ocorrido, próximo à rua onde Brown foi morto. Enquanto o toque de recolher, estipulado para a meia-noite, se aproximava, muitos manifestantes afirmavam que não iriam respeitar a determinação.

Antes do horário marcado, a polícia já reprimia quem permanecia nas ruas, e bombas de gás foram atiradas contra a população e a imprensa. Foram reportados tiros de armas de fogo, ainda não atribuídos com certeza à manifestantes ou policiais. O trabalho da mídia foi destinado a uma área específica com acesso controlado pela polícia. Apesar disso, repórteres de grandes redes como a CNN relatavam sentirem-se mais protegidos com a determinação.

A imprensa americana tradicional contenta-se em transmitir as informações através dos limites estabelecidos pelas forças de autoridade. Quando os conflitos atingem o ápice, apenas alguns jornalistas independentes colocam-se junto aos manifestantes para acompanhar os atos.

Em um vídeo gravado de uma transmissão por LiveStream, um policial grita ao jornalista que filmava as ações: “Saia já daí, ou irei atirar”, apontando uma arma para a câmera. O capitão chegou a conversar com o repórter para acalmar os ânimos, porém não forneceu a identificação do oficial que o intimidou.

O governador anunciou na segunda-feira (18), a entrada da Guarda Nacional para a contenção dos protestos. A Anistia Internacional enviou representantes à Fergunson para acompanhar a situação e denunciar possíveis abusos por parte dos envolvidos. A organização jamais havia destinado o trabalho de observadores para conflitos ocorridos dentro dos Estados Unidos.

Com a Guarda Nacional nas ruas, a repressão atingiu seu ápice. A polícia prendeu 31 manifestantes e não hesitou em utilizar seus aparatos militares para dispersar a multidão. O toque de recolher não assusta os moradores de Fergunson, que prometem seguir nas ruas. O assassinato de Michael Brown já é visto como a ponta de um enorme iceberg, há muito tempo segregando os direitos dos residentes frente a presença policial.

Muitos pedem o afastamento do chefe de polícia de Fergunson, Tom Jackson, a quem atribuem a demora na divulgação de informações do atirador, e a infeliz divulgação do vídeo de Michael Brown na loja de conveniência. A não-divulgação das cenas gravadas pelas câmeras policiais, presentes em todos os carros da corporação, também gera revolta.

Temas como a desmilitarização das polícias norte-americanas e a importância do voto, não-obrigatório no país, tornaram-se presentes nas discussões em nível nacional. O reverendo Clinton Stancil, ativista dos direitos civis, afirmou em uma entrevista: “Nós (cidadãos de Fergunson) podemos controlar quem senta na cadeira do prefeito. Estamos falando de uma cidade em que 70% da população é negra e não temos ninguém no poder que se pareça conosco”.

A revolta cresce nas ruas a cada ação truculenta da polícia. A divulgação do relato em favor do policial  deve acirrar ainda mais o ânimo dos manifestantes. A resolução das tensões parece longe do fim, assim como os problemas vividos há décadas por negros e comunidades periféricas com a polícia dos Estados Unidos.

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