Polícia assassina mais um jovem negro à luz do dia no Missouri

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

Pelo menos 9 tiros foram alvejados contra o jovem de 25 anos, que, segundo conhecidos, tinha problemas mentais, aumenta intensidade dos protestos

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A polícia de St. Louis, cidade a 19 km de Ferguson, matou na tarde de terça-feira (19) Kajieme Powell, um jovem negro de 25 anos. O assassinato ocorreu próximo à região que tem sido palco de protestos contra os abusos policiais. Essas mobilizações estão sendo repreendidas, violentamente, pelas forças de autoridade.

A ação policial foi gravada pelo celular de uma testemunha que caminhava pelo local. Nas cenas, é possível ver Powell falando sozinho e andando de um lado a outro. Segundo vizinhos, o jovem sofria de distúrbios mentais. Ele havia acabado de sair de uma loja de conveniência com dois energéticos e um donuts, sem pagar pelos itens, e andava com uma faca na mão. O dono do comércio chamou a polícia para averiguar a ocorrência.

No vídeo, os dois oficiais, ao chegarem, ordenam que Powell coloque as mãos sobre a cabeça. O jovem começa a andar em direção aos policiais gritando: “Atire em mim, atire em mim, seus filhos da puta”. Quando ele se aproxima, os dois oficiais atiram ao menos 9 vezes na vítima, que cai morta instantaneamente, menos de 20 segundos após a chegada da viatura.

Confira o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=6ta2-7QJM78w=640&h=360

De acordo com os relatos da gravação os dois policiais ainda algemaram a vítima, já morta no chão. Muitas das testemunhas que aparecem nas imagens se mostram perplexas pela desproporção e o uso excessivo da força, enquanto a polícia tenta afastá-los. “Tudo isso por dois refrigerantes”, afirma um dos transeuntes. “É possível sentir o cheiro de pólvora”, diz outro.

O chefe de polícia Sam Dotson afirmou em entrevista coletiva que os oficiais agiram em legítima defesa, e que Powell empunhava a faca no momento em que foi alvejado por diversos tiros. Dotson disse também que “todo o policial tem o direito de se defender” e que “a segurança dos oficiais é a preocupação numero um”, classificando a morte como “suicídio por policiais”, uma denominação utilizada para situações em que a vítima age de maneira ameaçadora, provocando a reação letal de forças da lei.

O assassinato ocorreu às 12h20, diante de diversas testemunhas. No relatório da corporação, os dois policiais são apontados como vítimas e não têm seus nomes divulgados.

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Relatório policial do assassinato, que identifica os dois oficiais como vítimas.

Os protestos na cidade vizinha, Ferguson, continuam sofrendo com o armamento militar da Guarda Nacional e o toque de recolher, convocados pelo governador do estado do Missouri, Jay Nixon. As forças policiais prenderam 51 pessoas entre os dois últimos dias. Segundo dados da corporação, a maior parte das detenções ocorreu por infração à ordem oficial de dispersão dos atos.

Além de manifestantes, 11 jornalistas já foram presos e repórteres seguem relatando diversas restrições ao livre trabalho da imprensa. Bombas de gás lacrimogênio foram atiradas contra uma câmera da rede Al Jazeera. Em entrevista coletiva, o capitão Ron Johnson afirmou que a polícia seguirá prendendo repórteres, por não conseguirem diferenciá-los de manifestantes, mesmo que estes tenham se identificado no momento das prisões.

O estopim das manifestações foi a morte de outro jovem negro desarmado. Michael Brown, de 18 anos, executado à luz do dia pelas forças policiais. O oficial responsável, Darren Wilson, ainda não foi indiciado por nenhum crime.

Os assassinatos envolvendo conflitos raciais revelam alguns contrastes da região. A cidade de Ferguson conta com 67% da população composta por negros e 94% de sua força policial exercida por brancos. O percentual de prisões efetuadas também demonstra números alarmantes: 92% dos casos detiveram negros. Os abusos de autoridade são relatados como recorrentes pelos moradores da cidade.

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