A derrota de Israel

O médico Abdel Latif Hasan Abdel Latif, palestino que reside atualmente em São Paulo, posiciona-se em relação aos conflitos em Gaza através de cartas abertas ao público

1621771_743875669006673_6910761397437660668_n

Foto: Basel Yazouri/Guerrilha GRR

Por Abdel Latif Hasan Abdel Latif

Após 51 dias de ataques israelenses contra Gaza, por mar, ar e terra, Israel foi obrigado a parar com o massacre contra os palestinos.

Apesar das mais de quinze mil vítimas palestinas, mortos e feridos, dos quinhentos mil desabrigados,  da infraestrutura  e mais de  onze mil casas e edifícios destruídos, Israel não alcançou nenhum dos seus objetivos: não acabou com o Hamas, não conseguiu  enfraquecer a resistência palestina, não acabou com os foguetes e foi obrigado a negociar com uma delegação palestina, que incluía membros do Hamas.

Milhares de palestinos saíram nas ruas de Gaza, Cisjordânia e nos campos de refugiados do Líbano e Jordânia, para festejar o fim dos ataques.

Para eles, a resistência  e o povo de Gaza saíram vitoriosos e não poderia ser diferente.  Quando o lado mais forte não consegue uma vitória total, ele sai derrotado,  quando o mais frágil não é derrotado, é porque sairá vitorioso.

Os palestinos encaram os recentes ataques contra Gaza como apenas uma batalha em uma longa guerra que Israel trava contra eles há 70 anos.

A despeito  da superioridade militar israelense e das grandes perdas palestinas, Israel não vencerá  a guerra. Os motivos são muitos, mas mencionam-se apenas três.

O primeiro é que as justificativas e mentiras de Israel para lançar seus ataques não mais convencem  nem seus aliados.

Em uma entrevista para o site Democracy now,  Henry Siegman, um dos líderes da comunidade judaica nos Estados Unidos e ex-diretor executivo do Congresso Judaico Americano,  disse que nenhum país e nenhum povo no mundo aceitaria viver nas condições que os palestinos  de Gaza são obrigados a viver.  Disse isso, descartando a justificativa chavão de Israel para suas agressões de que nenhum país toleraria foguetes contra seu território.

Siegman afirmou que a moralidade da ação israelense depende  primeiramente da análise  de se  Israel poderia fazer algo para prevenir o desastre humanitário que está promovendo em Gaza.  Poderiam os  israelenses fazer algo  que não custasse tão  alto preço humano?  A resposta, certamente, é sim: acabar com a ocupação.

Siegman vai além e questiona a legitimidade de Israel e a sanidade do projeto sionista. Segundo ele, “quando penso que tudo isso é necessário para a sobrevivência de Israel e que o sonho sionista causa reiterados massacres de inocentes em escala tão grande quanto temos assistido, isso nos coloca em crise muito profunda”.

Ele afirma que o objetivo final de Israel é impedir o estabelecimento  de um Estado palestino soberano nos territórios palestinos ocupados em 1967.

Siegman afirma que Netaniahu, primeiro ministro israelenese, quer obrigar os palestinos  a se submeterem ao seu plano de “solução final”  do problema palestino: guetos em Gaza e Cisjordânia, sob controle total de Israel.

Ele observa que a solução pretendida por Netaniahu levaria ao desaparecimento de Israel no máximo em 50 anos.

O segundo motivo é a luta dos palestinos como uma demanda pelos mais básicos direitos humanos: liberdade e autodeterminação.

Cada vez mais pessoas percebem a essência dessa luta,  deixando a posição israelense cada vez mais indefensável.

14718244656_a2f92f97c1_b

Foto: Basel Yazouri/Guerrilha GRR

Yizthak  Frankenthal, judeu israelense, cujo filho foi seqüestrado e morto pelo Hamas em 1994,  escreveu no sítio PAZAGORA.ORG, em 2002, que “nos últimos dois anos, parei de vê-los (palestinos) como terroristas e passei a enxergá-los como soldados palestinos. Aqueles que mataram meu filho eram soldados palestinos lutando pela sua liberdade. Seria muito mais fácil odiá-los, mas creio que não é correto classificá-los como terroristas, pois se assim fosse, deveríamos lutar duramente contra eles, o que significa combater a população civil palestina, uma guerra que não podemos vencer”.

Frankenthal lamentou a morte dos filhos e da mulher do líder militar do Hamas, Mohamed Al Daif, durante o mais recente massacre israelense contra Gaza.

Ele perguntou: “Que culpa tem eles? Que culpa tem o próprio Daif?  Eles são as vítimas. Nós, judeus, obrigamos os palestinos a se defenderem contra nossos atos. Quando recusamos fazer a paz com eles, quando construímos assentamentos ilegais nas suas terras e quando violamos seus direitos, o que eles podem fazer? O que nós faríamos  no lugar deles? Aqueles que acreditam que os massacres podem derrubar um povo que luta pela sua liberdade, estão enganados”.

Frankenthal encerra com a questão: “Quando nós israelenses vamos perceber que apenas Justiça trará segurança para nós”?

O pai do soldado Shalit, seqüestrado pelo Hamas e libertado em troca de prisioneiros palestinos,  disse que se fosse palestino,  seria “terrorista” do Hamas e seqüestraria soldados israelenses, alegando que aos palestinos, não restaram opções.

Lutar pela liberdade e pelo fim da limpeza étnica, opressão e apartheid  promovidos por Israel,  é direito e dever dos palestinos.  A ocupação  é crime contra a humanidade e requer a condenação universal.

A terceira razão é manter o status quo na Palestina ou chegar a uma solução final conforme os termos israelenses. Israel necessita aplicar cada vez mais os mesmos meios que usa desde sua criação: genocídio e limpeza étnica.  Poucos no mundo são capazes de defender abertamente esses meios.

Em carta publicada no jornal  New York Times, no último dia 23, centenas de sobreviventes e descendentes condenaram o massacre de Israel em Gaza.

Escreveram: “Como sobreviventes e seus descendentes judeus do genocídio  nazista, condenamos o massacre dos palestinos em Gaza e a ocupação e colonização da Palestina histórica em curso”.

“O genocídio começa com o silêncio do mundo.”

“Devemos elevar nossas vozes e usar nosso poder coletivo para por fim a todas as formas de racismo, inclusive o genocídio em curso do povo palestino.”

Quando sobreviventes judeus do holocausto nazista irmanam seu sofrimento ao martírio dos palestinos sob ocupação ou mesmo dentro de Israel,  o Estado judeu está  indo contra o curso da História.  Não importa quantas vitórias militares consiga, caminha para sua derrota final.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s