O maracatu existe porque a vida não basta

IV Encontro Estéticas das Periferias promoveu apresentação de maracatu na Zona Sul da capital

Foto: Carolina Piai

Foto: Carolina Piai

Por Carolina Piai

Ao lado da Represa Billings, no extremo Sul de São Paulo, está a Comunidade da Fumaça. Um esgoto a céu aberto passa perto desse vilarejo, que fica próximo à Estrada do Alvarenga. No último sábado (30), os moradores da Fumaça foram presenteados: receberam os batuques do maracatu. Enquanto alguns observavam, outros caíram na dança.

A atividade fez parte da quarta edição do Estéticas das Periferias e foi articulada pelo CAP (Coletivos Culturais da Cidade Ademar) em conjunto com a ONG Ação Educativa. Os grupos Batuque Abayomi, Grupo Maracagueto e Cia. Caracaxá fizeram cortejos em diferentes partes da região e se encontraram na Comunidade da Fumaça.

Durante o trajeto, o maracatu atraiu olhares curiosos. Da rua, via-se muitos rostinhos nas janelas apenas a observar. Outras pessoas foram para a porta. “Eu estava lá em casa e ouvi um som. Aí eu saí pra ver”, conta Maria Antônia Cardoso. Com a neta no colo, diz: “Ela tem 9 meses, mas já está andando. Tudo que ela pega ela já começa a batucar. O pai dela é batuqueiro. A gente já pensa que ela vai fazer parte de algum grupo por aí”.

Sob o sol do meio dia, a Comunidade da Fumaça virou festa. Só se ouvia o estrondoso batucar. João*, um dos moradores, vibrava de felicidade. “Isso é muito importante pra fortalecer a comunidade. Eu acho muito bonito”, comenta. “Todo mundo se ajunta. Quando essa união for mais pra frente, pode até isso aqui mudar. A Sabesp pode ligar a água pra gente, a Eletropaulo a energia, pode vir até asfalto”, completa, esperançoso.

A precariedade, porém, não atinge apenas aqueles moradores. “Eu, Aurélio Prates, quero, antes de morrer, poder viver de arte com dignidade. Sem ter que catar migalhas nos cantos da minha cidade”. Ele é um dos artistas que se apresentou na comunidade e luta pelo fomento cultural das quebradas.

“Faço parte da Cia. Caracaxá e do Coletivo Princesa da Zona Urbana. Os dois são do CAP, uma junção de vários fazedores artísticos de todas as áreas que surgiu em junho de 2013 com o intuito de discutir a construção de políticas públicas culturais da periferia para a periferia”, explica. “A Secretaria de Cultura não injeta valores aqui, nos bairros de Cidade Ademar e Pedreira. Vivemos mal e porcamente de arte”, conta Aurélio.

Durante a apresentação, Aurélio, com um turbante na cabeça e colares de pedra no pescoço, dançou sem parar. Sob um salto alto, guiava a Cia. Caracaxá pelos becos da Estrada do Alvarenga. “A importância de ter um cortejo aqui é mostrar que os nossos vizinhos fazem arte, é nos conhecermos enquanto vizinhos. Eu moro aqui! E hoje meus vizinhos puderam ver a beleza do Maracatu, tradição pernambucana que existe há mais de 200 anos”.

Naquele sábado ensolarado, a tradição pernambucana uniu os moradores de uma quebrada da capital financeira do país. Na hora do show todo mundo estava feliz. A arte costuma fazer isso com as pessoas. Como já diria Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

 

*Nome fictício, morador não quis ser identificado

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