Goleiro Aranha explica como o Rap o ajudou a enfrentar episódio de racismo

Por Vinícius Lima

Aranha pede aos cinegrafistas para filmarem torcedores racistas

Aranha pede aos cinegrafistas para filmarem torcedores racistas

No dia 28 de agosto, em Porto Alegre (RS), na partida do Grêmio contra o Santos pela Copa do Brasil de 2014, o Brasil presenciou mais uma vez, uma infeliz manifestação racista dentro dos estádios do país, desta vez contra o goleiro do Santos: Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha.

Durante a partida, o jogador foi provocado pela torcida gremista por nomes como: “macaco” e “preto fedido”. Aos 42 minutos do segundo tempo, Aranha então reclamou com o árbitro Wilton Pereira sobre as agressões racistas, porém ele não correspondeu e mandou seguir o jogo. Logo, Aranha percebeu quem eram os agressores e pediu para as câmeras mostrarem seus rostos.

Aranha credita sua preparação emocional a um gênero musical. Em entrevista ao Fantástico, o goleiro disse: “Eu tive a felicidade de aprender muito com o RAP. É um pessoal bem informado sobre política, religião e a história do seu país”. Ele ainda acrescentou:  “Como na periferia a gente ouve muito isso, porque é aquilo que está na nossa realidade, eu cresci preparado pra esse tipo de situação. Por isso eu não chorei, não fiquei abalado. Eu expus a minha revolta, fiquei com muita raiva, mas eu sabia que tinha que ser mais inteligente que aquele povo.”

Aranha com seus fones de ouvido: rap é influência (Foto: Reprodução)

Aranha com seus fones de ouvido: rap é influência (Foto: Reprodução)

Na mesma entrevista, o goleiro revela que não é a primeira vez que passou por isso e que faz parte do seu dia a dia e do cotidiano do negro brasileiro lidar com o racismo. “Eu sei que muitas vezes não sou aceito, mas tolerado. Porque sou goleiro do Santos, bicampeão mundial, porque tenho um carro bonito, porque compro isso ou aquilo. Então, muitas vezes sou tolerado, mas não sou aceito. Já morei em prédios, minha família está de testemunha, que não me davam nem um bom dia”, declara o jogador na entrevista.

No final, Aranha cita Martin Luther King e diz, “Eu tenho um sonho. Que um dia viveremos em uma nação onde as pessoas não serão julgadas pela cor da pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter”. O futebol está longe de ser o exemplo de inclusão e democracia, que muitos dizem. Vê-se isso pelos inúmeros Dani Alves, Grafites e Tingas que estão espalhados pelos estádios do mundo todo batalhando contra o racismo.

Será que, dentro de campo e nas arquibancadas, o Brasil está voltando a ser colônia e retornando à época do “pó de arroz” (época em que jogadores negros tinham que passar pó branco no rosto para entrar em campo)?

Leia a entrevista da Revista Vaidapé com Tinga, do Cruzeiro, também sobre o racismo no futebol, e assista ao vídeo.

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