O Império ataca

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque

imperialismo

11 de setembro de 2001. O maior centro comercial do mundo cai ao chão na Roma do mundo globalizado. Milhares vitimados. Uma comoção toma conta do Império. O imperador não precisa nem declarar. Sua nação está em guerra.

11 de setembro de 2014. A guerra de 13 anos atrás provocou marcas profundas nas regiões afetadas. O Oriente Médio foi invadido pelo Império e seu ditador derrubado. O Iraque permaneceu ocupado por quase 10 anos desde o início da guerra contra o terrorismo, encabeçada pelos Estados Unidos. Bin Laden está morto. O local do World Trade Center se tornou museu em memória das vítimas. E a desestabilidade política provocada na região por conta da invasão norte-americana desencadeia o anúncio de uma nova guerra.

Na noite de 10 de setembro de 2014, o presidente Barack Obama apareceu em rede nacional para afirmar o compromisso de seu governo com a paz. Isso será realizado através de uma nova guerra. Mas não se assustem, soldados americanos não irão ao combate terrestre desta vez. Vítimas só do outro lado. Em nome da defesa do que “é certo”. Em um combate encarado pela nação mais poderosa do mundo pelo objetivo de eliminar a ameaça à sua superpotência, e afastar de vez o chamado terrorismo, razão de muitos males do mundo.

Novamente, o Império encabeça uma guerra em nome de valores autoritários, aos quais ele permite chamar de seus.

A guerra já é vendida aos americanos, com slogans e chamadas especiais nas redes de televisão. Políticos, jornalistas e especialistas opinam e atentam para a necessidade do ataque. O Estado Islâmico é o “novo câncer para a América”, nas palavras do próprio presidente, que ainda completou: “Se você ameaça a América não encontrará um lugar seguro”. O Império novamente vai à guerra. O mercado bélico se aquece para tirar seus brinquedos do armário.

O novo câncer, no entanto, é praticamente desconhecido por grande parte dos americanos. Em entrevistas que pude realizar em Nova Iorque, as pessoas afirmam conhecer muito pouco sobre o novo inimigo. Mesmo assim, o medo propagandeado parece ter funcionado no apoio às ações militares no conflito.

Para Frank, aposentado, “a maior parte do povo americano ainda sabe muito pouco sobre o ISIS (Estado Islâmico), assim como sabíamos muito pouco da Al Qaeda antes dos atentados. Talvez seja hora de pensar em atacar primeiro”, reflete. Justin, que trabalha com vendas, diz que “boa parte daquela região (Oriente Médio) segue odiando a América”. Mesmo assim as informações sobre o grupo considerado extremista são mínimas: “Não estou familiarizado com a situação. Não sou a favor de ataques, mas acho que precisamos cortar o mal pela raiz”.

Outro entrevistado, Devin, afirma que “não sente mais segurança com relação às ameaças, mas sim com a possibilidade de revidar.” Ainda assim, foi o único entrevistado que afirmou ser contra os ataques: “Não sou a favor de nenhum ataque terrestre sem (que tenha ocorrido) uma provocação”

Assustados pelas poucas informações divulgadas sobre o grupo, e pela cena da decapitação de dois jornalistas norte-americanos, repetidas a exaustão pela mídia, grande parte do povo americano parece apoiar a decisão de seu país. Em pesquisa divulgada pela rede CNN, 76% dos entrevistados apoiam a intensificação de investidas militares aéreas no Iraque.

E através da propaganda antiterrorista e a falta de informações a guerra vai sendo apoiada. A confiança na posição de superpotência do Império dispensa maiores informações.

As vozes que se opõem à intervenção, que também representam parte significante da população, não encontram muito espaço. Até o momento, nem as redes sociais parecem constituir uma voz ativa contra a decisão de Obama. Por aqui, só o medo é vendido.

O cenário lembra muito a guerra anterior, na qual oficiais e jornalistas utilizavam a mídia para atentar sobre a ameaça dos grupos terroristas e a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Em um contexto em que poucos conheciam a Al Qaeda, e sabiam da formação militar de Saddam Hussein pelo próprio governo americano, a guerra foi vendida e muito bem comprada.

O resultado final é conhecido. As armas nunca existiram. Milhares de iraquianos foram assassinados. Diversas empresas privadas norte-americanas lucraram bilhões com os quase dez anos de ocupação.

Foram ao menos US$ 138 bilhões de lucros para empresas de segurança privada, construção de infraestrutura e abastecimento das tropas, segundo levantamento do Financial Times. A empresa mais beneficiada foi a multinacional Halliburton, especializada em exploração petrolífera, com US$39,5 bilhões arrecadados em serviços prestados. O antigo proprietário da empresa era o então vice-presidente de Bush, Dick Cheney.

Os números mostram como as guerras empreendidas pela Casa Branca não ocorrem por benevolência do Império, e possuem interesses muito mais amplos, e consequências muito mais danosas, do que mostram os dados apresentados ao povo americano, para vender o grande negócio que se tornou a guerra.

As atrocidades têm sido cometidas do outro lado do mundo. É um conflito político extremamente sangrento e sectário. Mas possui suas particularidades, as quais o Império, parece, só acaba por agravar.

Mais uma vez parece que o 11 de setembro, que muito antes das torres gêmeas, marcava o atentado dos Estados Unidos ao Palacio de la Moneda e a deposição do presidente Salvador Allende no Chile em 1973, será lembrado com fogo. E não serão fogos de artifício.

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