Caraíva: a ascensão econômico-turística em um naufrágio social.

Muitos dos que moram em grandes cidades, sabem o prazer do escape da metrópole para curtir as férias em lugares mais remotos. No entanto, muitas vezes os olhos estão fechados para a realidade dos habitantes locais

10707994_563302977130419_1796137874_n

Entardecer no Rio Caraíva / Foto: Thiago Gabriel

Por Martim Arantes

Quem chega ao vilarejo litorâneo de Caraíva, sul da Bahia, normalmente se encanta com o que vê: a pitoresca cidadela perdida do outro lado do rio remete à um cenário cinematográfica ou mesmo à realidades e costumes de outrora. Da esburacada estrada de terra que leva ao local, passando pela travessia do rio em canoas até a locomoção terrestre em carroças, choca e emociona os desavisados.

Toda de areia, sem sinal de celular e com iluminação apenas residencial, a vila tem atraído cada vez mais a presença dos turistas que buscam uma viagem alternativa ou o grande agito da alta temporada. No entanto, muitos que se encantam com as belezas naturais, a comida e a simpatia do povo baiano, não percebem as reais dificuldades que locais como esse atravessam.

Caraíva é considerada hoje o vilarejo mais antigo do Brasil, sendo datada a sua fundação do ano de 1530. Circundados pelo Rio Caraíva, mar e pela reserva indígena Pataxó, os nativos da região, em sua maioria pescadores, viram seu pequeno oásis se tornar um notado ponto no mapa. Infelizmente, a chegada de pessoas “de fora” (como são conhecidos no local) e investimento não refletiu em melhorias na qualidade de vida da população. Na realidade, muito pelo contrário.

Investidores imobiliários, pousadeiros e proprietários de restaurantes trouxeram consigo a prosperidade econômica, mas, como normalmente é comum em nosso território, a humilde população ficou a mercê da mudança e, cada vez mais, sofre para acompanhar a transformação do local.

Em um passado recente os Caraivenses viviam praticamente de maneira auto-sustentável. Cercada por árvores frutíferas e tendo na pesca a “sustância” da sua alimentação, o complemento era feito com hortas, a tradicional farinha de puba e criação de pequenos animais.

A escola praticamente não existia, o acesso a informação era limitadíssimo e a saúde era tratada, na maior parte das vezes, com receitas caseiras.

Com a chegada avassaladora do turismo muitas das residências dos nativos foram compradas à baixíssimos preços. Essa inescrupulosa barganha arrancou de Caraíva famílias que viviam no local há gerações, e que se viram sem estrutura para recomeçar uma nova caminhada. O dinheiro da venda? Obviamente se esvaía com muita facilidade.

Não é incomum encontrar antigos proprietários, de casas muito bem localizadas, que hoje são funcionários do seu antigo lar e apenas aparam os galhos das árvores que plantaram.

Obviamente o adensamento da região não resultou apenas em fatores negativos. O movimento externo trouxe a eletricidade ao local, em 2007, e as escolas estão mais bem estruturadas. Sem falar do aparecimento da ONG Caraíva Viva, que trabalha pelo desenvolvimento social do local. Ainda assim, os aspectos positivos são poucos e as mudanças vem ocorrendo de forma muito veloz e violenta; problematizando o acompanhamento da antiga  população.

A elite frequentadora do local, principalmente paulistas e mineiros, trouxe as drogas sintéticas, que hoje são uma triste realidade de muitos. Os entorpecentes acompanharam um aumento da violência: pequenos furtos que se transformaram em assaltos e atualmente em brigas e mortes pelo controle do tráfico.

Essa realidade infelizmente não é vivida apenas nesse vilarejo turístico. A maior parte dos pontos brasileiros que adquiriram o status de “paraíso” mascaram um lado nefasto, de uma transformação que atropelou os costumes locais e desestruturou a sua população.

Muitos que passam por Caraíva não percebem o desamparo quando capturam sorrisos com suas elegantes máquinas.

Advertisements

One response to “Caraíva: a ascensão econômico-turística em um naufrágio social.

  1. Pingback: Caraíva, turismo e naufrágio social·

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s