Morte de camelô leva à bairro nobre realidade periférica e insensibilidade de Haddad

A morte de Carlos, camelô executado pela Polícia Militar na última quinta-feira (18), evidencia a realidade vivida diariamente nas periferias. No entanto, o caso aconteceu na Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, chocou moradores da região e teve intensa repercussão nas redes sociais e, inclusive na grande mídia.

A comoção pelo assassinato fez a declaração de Haddad ganhar sentido: realmente, foi um caso isolado. Afinal, a regra é o silêncio mórbido em relação à mortalidade dos jovens negros e pobres

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Mais um assassinato da Polícia: desmilitarização já! (Ilustração: Vitor Teixeira)

Por Henrique Santana

Na última quinta-feira (18), o centro expandido de São Paulo vivenciou o que o prefeito paulista, Fernando Haddad (PT), classificou como “um caso isolado”. O prefeito esqueceu de dizer que o fato talvez seja isolado, se pensarmos na região da Lapa, na zona oeste de São Paulo, no entanto, o assassinato do camelô Carlos Augusto Muniz Braga, apenas trouxe às ruas do centro a escandalosa realidade das periferias da cidade.

De fato, os assassinatos no centro expandido não são tão comuns. Um recente levantamento do portal ponte.org, aponta as regiões onde a Polícia Militar paulista mais computou mortes. No primeiro semestre desse ano, por exemplo, a zona leste somou 56 mortes, ao passo que, na zona oeste, as armas de policiais mataram 9 pessoas. No Centro, nenhuma morte.

Não por acaso, o mesmo levantamento, com base em dados do Censo 2010, evidencia que a região que abriga a população de menor renda é a leste; as rendas mais altas, por outro lado, se concentram na zona oeste e no centro.

Só na capital, a Polícia Militar de São Paulo foi responsável pela morte de 163 pessoas, com uma média de mais de 27 mortos por mês – isso apenas nos dados oficiais, sem contar os grupos de extermínio composto por policias. A carta branca para matar é muito bem delimitada por uma linha que faz fugir dos olhos da elite paulista a verdadeira situação das ruas da periferia da cidade. O prefeito Haddad, com sua postura indiferente à situação, só reforça o aval do Estado à corporação assassina.

Interessante pensar que o impulso do policial, num repentino disparo em pleno centro paulista, evidencia a ponta de um iceberg, que se aprofunda na desigualdade social e racial, mas também guarda relação com o legado deixado pelas jornadas de junho e manifestações durante a Copa do Mundo. A onda de protestos, iniciadas ano passado, culminou em uma cobrança maior por parte do Estado para a intensificação da força repressiva. O absurdo aumento nos investimentos em aparatos policiais e de segurança pública para a Copa são exemplos disso.

Com isso, a violência policial vivida diariamente nas periferias começou a mostrar sua cara no centro da cidade. Obviamente as balas de borracha e prisões de manifestantes não são nada se comparadas às balas de chumbo, aos “desaparecimentos” e  à uma população carcerária – composta por uma esmagadora maioria de pobres – que soma atualmente mais de 700 mil presos. No entanto, a normalização do uso da violência, também no centro, se reflete no assassinato da última quinta-feira. E, para não fugir à regra, mais um negro morto.

No fim, um camelô que se revoltou com a repressão da Polícia Militar em uma abordagem violenta, é assassinado em um bairro nobre paulistano. Quem matou? Um policial, alegoria e retrato fiel da instituição à qual pertence: aquela em que não se pensa duas vezes antes de tirar a vida de mais um “favelado delinquente”.

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