Luta contra o capitalismo e pelo meio ambiente à moda norte americana

Em Nova Iorque mais de 100 prisões foram efetuadas de maneira arbitrária pela polícia, durante o ato “Flood Wall Street”, organizado pelo movimento Occupy Wall Street.

Por Thiago Gabriel, de Nova Iorque/ Fotos: Thiago Gabriel

Em uma segunda-feira comum na cidade de Nova Iorque, os executivos de Wall Street, a famosa rua que representa o centro financeiro da cidade, chegariam às 9h, com seus cafés do Starbucks nas mãos, para começar o expediente. Entre compras e vendas de ações, comandam o destino do dinheiro das grandes empresas e a sorte da política econômica de qualquer país no mundo globalizado.

Nesta segunda (22), no entanto, os engravatados receberam visitas de indivíduos nada contentes com seus atos. Mais de 3000 pessoas, segundo estimativa dos organizadores, reuniram-se em frente ao touro-símbolo do bairro para protestar, pedindo ações políticas que ponham fim à destruição descontrolada do meio ambiente. Para tal mudança, é inevitável que os governantes parem de ser subordinados ao capital financeiro e os interesses de grandes empresas.

A marcha, denominada Flood Wall Street (Inunde Wall Street), faz parte da Climate Justice Alliance, que organizou ações diretas não-violentas para denunciar as mudanças climáticas na semana em que líderes mundiais encontram-se em Nova Iorque para reunião da ONU sobre o tema. A manifestação foi organizada por integrantes do movimento Occupy Wall Street, que abalou as estruturas da região com massivos protestos e ocupações que duraram semanas, em 2011. Com o slogan “Stop Capitalism. End Climate Crisis” (“Pare o capitalismo. Acabe com a crise climática”), a manifestação deixa claro seu objetivo, bem mais radical do que a enorme marcha do dia anterior (confira a matéria da Revista Vaidapé).

O ato iniciou sua concentração em um parque ao sul da ilha de Manhattan, o Battery Park, reunindo discursos de diferentes ativistas que representam os 99% da população afetada negativamente pelo capitalismo. Em seguida, algumas aulas de desobediência civil foram apresentadas ao público. Vestidos de azul e entoando gritos e musicas, o povo se dirigiu ao maior centro financeiro do mundo para denunciar o capitalismo selvagem que privilegia 1% dos cidadãos.

Na segunda concentração, na Broadway com a rua Morris, o número de policiais no local era excessivo. Logo ao chegar pela estação de metrô, já se avistava o bloqueio à Wall Street. Só passava quem apresentasse crachás do local de trabalho. Em frente ao touro, grades protegiam a escultura, rodeada de oficiais.

Depois de representações teatrais retratando as consequências do capitalismo, músicas ensaiadas para a ocasião e bom humor para protestar, os manifestantes decidiram conjuntamente seguir em direção à Wall Street. O anúncio foi feito permitindo a todos os presentes a livre expressão “Isso é o que decidimos fazer. Vocês podem fazer o que quiserem. Não nos deixe lhes dizer o que fazer”.

Ao marchar em direção à emblemática Wall Street, os manifestantes sabiam exatamente o que lhes esperava por lá. E pareciam conformados com a reação que receberiam da polícia. Alguns diziam-se prontos para ser presos. Outros, na iminência das detenções, afirmavam que não podiam ser detidos pelos mais variados motivos.

Grades impedindo a passagem do ato permitiam aos policiais proibir a entrada em Wall Street, o que causou um breve tumulto. Ao tentar derrubar o cerco que os controlava, os manifestantes proferiam palavras de ordem aos policiais como “Who do you serve? Who do you protect?” (A quem você serve? A quem você protege?). Os oficiais reagiram com empurrões e spray de pimenta para preservar o intocável templo do capital.

Depois da confusão, o ato concentrou-se em frente ao cerco policial. Discursos, palavras de ordem, pizza para os esfomeados e uma partida de futebol na rua, normalmente ocupada por carros, e executivos apressados. O movimento possui um incrível senso de solidariedade entre seus membros, muitos sentaram-se para ocupar o espaço público em protesto, pelo tempo que fosse necessário.

Não foi preciso muito para a policia agir, a chegada do reforço de centenas de oficiais enclausurava os manifestantes em um quarteirão. Eles permitiam que o ato continuasse com olhares irônicos e risadas. Alguns iam ate um café próximo buscar rosquinhas, outros divertiam-se em explicar aos transeuntes o caminho longo para atravessar o cerco. Muito educados, eles conversavam com manifestantes e demonstravam um conhecimento de seu trabalho e da situação muito diferente da PM brasileira.

No início da noite, as forças de autoridade decidiram deixar o café de lado e agir. Através de auto falantes ordenavam a saída imediata da rua, sob a ameaça de prisão para os que contrariassem as ordens. Muitos posicionaram-se nas calçadas, a esperar o show policial. Grades cercavam os que permaneciam nas ruas, sentados, apenas esperando pelas algemas do poder.

Um a um, os manifestantes pacíficos foram sendo levados ao ônibus da corporação. Eles já sabiam exatamente pelo que iriam passar, e conformavam-se com a arbitrariedade. Um a um foram ovacionados pela plateia de manifestantes passivos.

Um policial ria e fazia acenos para as câmeras que filmavam a ação. Ele perguntava por sua audiência nos live streamings. Eric tentava conversar com alguns oficiais para “comprovar sua humanidade”. “Olhe nos meus olhos”, ele dizia, “oficial Charles, conte-me um pouco sobre sua família. Como você se sente fazendo parte desse lado da história? O que acha de estar do mesmo lado dos policiais na época dos movimentos por direitos civis?”, perguntava para o oficial negro.

Ao final, as pessoas eram presas de maneira voluntária. Aproximadamente 100 manifestantes foram detidos. O sentimento era de demonstrar a arbitrariedade das forças policiais, que realizavam as prisões sobre a simples acusação de ocupar as ruas. Ao serem levadas eram aplaudidas e ouviam gritos de “thank you” do restante dos manifestantes, que apoiavam-se sob a grade como que esperando seus ídolos aparecerem.

Por aqui, a denúncia da arbitrariedade policial é encarada com criatividade, bom humor e respeito. É uma pena que em outras realidades, na maior parte das vezes isso simplesmente não seja o bastante. Tanto quem foi preso como quem ficou sentia-se com o dever cumprido. Uma campanha na internet foi organizada para arrecadar fundos para pagar a fiança dos detidos.

Pacífica e alegre, a resistência aqui parece muito diferente da que vimos nos mais recentes protestos no Brasil. Apesar da abordagem não-violenta do ato, a polícia repete as mesmas estratégias de contenção de manifestações que nos acostumamos a vivenciar com a PM brasileira. Encurralando o ato, agindo com truculência deproporcional, provocando prisões arbitrárias e ilegais, protegendo o capital e suprimindo o direito de livre expressão da sociedade. Como Eric dizia ao policial Charles através das grades, “O que falta para vocês se juntarem ao nosso lado?”

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One response to “Luta contra o capitalismo e pelo meio ambiente à moda norte americana

  1. Protestos vem sido reprimidos com força desproporcional e violentamente em todos os países democráticos do mundo. Me pergunto, a democrácia em um sistema político que não permite protestos e contestações? Me parece um tanto quanto totalítario e ditatorial.

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